Preparando as fórmulas…

Capítulo 8Inferências Ótimas

Esboço do capítulo

No Capítulo 5, apresentamos o ingrediente básico da inferência estatística: o modelo estatístico. No Capítulo 6, desenvolvemos métodos de inferência baseados apenas no modelo, por meio da função de verossimilhança1. No Capítulo 7, acrescentamos a distribuição a priori2 para o parâmetro do modelo, o que levou à distribuição a posteriori3 como base para obter métodos de inferência.

Tanto com a verossimilhança4 quanto com a distribuição a posteriori, porém, as inferências foram obtidas, em grande parte, com base na intuição. Por exemplo, quando tínhamos uma característica de interesse \(\psi(\theta)\), nada na teoria dos Capítulos 6 e 7 nos obrigava a escolher um estimador, um intervalo de confiança5 ou de credibilidade ou um procedimento de teste em particular. Uma teoria completa da inferência estatística, porém, prescreveria totalmente nossas inferências.

Uma tentativa de resolver essa questão é introduzir uma medida de desempenho para as inferências e, então, escolher a inferência que se sai melhor com respeito a essa medida. Por exemplo, podemos escolher medir o desempenho dos estimadores pelo seu erro quadrático médio6 (MSE) e, então, tentar obter um estimador com o menor MSE possível. Essa é a abordagem de otimalidade da inferência, e ela tem tido bastante sucesso em vários problemas. Neste capítulo, veremos vários sucessos da abordagem de otimalidade na obtenção de inferências.

Às vezes, a medida de desempenho que usamos pode ser considerada como baseada no que se chama de função de perda7. As funções de perda formam a base de mais uma abordagem da inferência estatística, chamada teoria da decisão8. Embora nem sempre uma medida de desempenho seja baseada numa função de perda, isso vale em alguns dos problemas mais importantes da inferência estatística. A teoria da decisão fornece um arcabouço geral para discutir esses problemas. Uma breve introdução à teoria da decisão é dada na Seção 8.4, como tópico avançado.

8.1 Estimação Não Viesada Ótima

Suponha que queremos estimar a característica real \(\psi(\theta)\) do modelo estatístico \(\{f_\theta : \theta \in \negrito{\Omega}\}\). Se observamos os dados \(s\), uma estimativa9 é um valor \(T(s)\) que o estatístico espera que esteja perto do verdadeiro valor de \(\psi(\theta)\). Dizemos que \(T\) é um estimador de \(\psi\). O erro da estimativa é dado por \(\lvert T(s) - \psi(\theta)\rvert\). Por várias razões (a maioria ligada à matemática), é mais conveniente considerar o erro quadrático \((T(s) - \psi(\theta))^2\).

É claro que gostaríamos que esse erro quadrático fosse o menor possível. Como não conhecemos o verdadeiro valor de \(\theta\), isso nos leva a considerar as distribuições do erro quadrático quando \(s\) tem distribuição dada por \(f_\theta\), para cada \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Gostaríamos, então, de escolher o estimador \(T\) de modo que essas distribuições fiquem o mais concentradas possível em torno de 0. Uma medida conveniente da concentração dessas distribuições em torno de 0 é dada por suas médias, isto é, \begin{equation} \mathrm{MSE}_\theta(T) = E_\theta((T - \psi(\theta))^2), \tag{8.1.1}\end{equation} chamada de erro quadrático médio (lembre a Definição 6.3.1).

Um estimador ótimo de \(\psi(\theta)\) é, então, um \(T\) que minimiza (8.1.1) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Em outras palavras, \(T\) seria ótimo se, para qualquer outro estimador \(T^*\) definido em \(S\), tivéssemos \[ \mathrm{MSE}_\theta(T) \le \mathrm{MSE}_\theta(T^*) \] para cada \(\theta\). Infelizmente, pode-se mostrar que, exceto em circunstâncias muito artificiais, não existe tal \(T\); por isso, precisamos modificar nosso problema de otimização.

Essa modificação consiste em restringir os estimadores \(T\) que admitiremos como escolhas possíveis para a inferência. Considere um estimador \(T\) tal que \(E_\theta(T)\) não existe ou é infinito. Pode-se mostrar, então, que (8.1.1) é infinito (veja o Desafio 8.1.26). Assim, primeiro restringiremos nossa busca aos \(T\) para os quais \(E_\theta(T)\) é finito para todo \(\theta\).

Outras restrições aos tipos de estimadores que consideramos usam o resultado a seguir (lembre também o Teorema 6.3.1).

Teorema 8.1.1

Se \(T\) é tal que \(E(T^2)\) é finito, então \[ E((T - c)^2) = \Var(T) + (E(T) - c)^2, \] Isso é minimizado tomando \(c = E(T)\).

Demonstração.

Temos que \begin{align} E((T - c)^2) &= E((T - E(T) + E(T) - c)^2) \notag\\ &= E((T - E(T))^2) + 2E(T - E(T))(E(T) - c) + (E(T) - c)^2 \notag\\ &= \Var(T) + (E(T) - c)^2, \tag{8.1.2} \end{align} pois \(E(T - E(T)) = E(T) - E(T) = 0\). Como \((E(T) - c)^2 \ge 0\) e \(\Var(T)\) não depende de \(c\), o valor de (8.1.2) é minimizado tomando \(c = E(T)\).

8.1.1 O Teorema de Rao–Blackwell e a Rao–Blackwellização

Vamos provar que, quando procuramos um \(T\) que minimize (8.1.1), podemos restringir ainda mais nossa atenção a estimadores \(T\) que dependem dos dados apenas por meio do valor de uma estatística suficiente10. Isso simplifica nossa busca, pois a suficiência muitas vezes resulta numa redução da dimensão dos dados (lembre a discussão e os exemplos da Seção 6.1.1). Antes, porém, precisamos da seguinte propriedade da suficiência.

Teorema 8.1.2

Uma estatística \(U\) é suficiente para um modelo se e somente se a distribuição condicional11 dos dados \(s\) dado \(U = u\) é a mesma para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\).

Demonstração.

Veja a Seção 8.5 para a demonstração deste resultado.

A consequência desse resultado é que a informação contida nos dados \(s\) além do valor \(U(s) = u\) não pode nos dizer nada sobre o verdadeiro valor de \(\theta\), porque essa informação vem de uma distribuição que não depende do parâmetro. Observe que o Teorema 8.1.2 é uma caracterização da suficiência, alternativa à dada na Seção 6.1.1.

Considere um exemplo simples que ilustra o conteúdo do Teorema 8.1.2.

Exemplo 8.1.1

Suponha que \(S = \{1, 2, 3, 4\}\), \(\negrito{\Omega} = \{a, b\}\), em que as duas distribuições de probabilidade são dadas pela tabela a seguir.

\(s = 1\)\(s = 2\)\(s = 3\)\(s = 4\)
\(\theta = a\)\(1/2\)\(1/6\)\(1/6\)\(1/6\)
\(\theta = b\)\(1/4\)\(1/4\)\(1/4\)\(1/4\)

Então \(L(\cdot \mid 2)\) \({}= L(\cdot \mid 3)\) \({}= L(\cdot \mid 4)\) e, assim, \(U : S \longrightarrow \{0, 1\}\), dada por \(U(1) = 0\) e \(U(2) = U(3) = U(4) = 1\), é uma estatística suficiente.

Como necessariamente \(s = 1\) quando observamos \(U(s) = 0\), a distribuição condicional da resposta \(s\), dado \(U(s) = 0\), é degenerada em 1 (isto é, toda a massa de probabilidade está no ponto 1) tanto para \(\theta = a\) quanto para \(\theta = b\). Quando \(\theta = a\), a distribuição condicional da resposta \(s\), dado \(U(s) = 1\), põe \(1/3\) de sua massa em cada um dos pontos de \(\{2, 3, 4\}\), e o mesmo acontece quando \(\theta = b\). Assim, dado \(U(s) = 1\), as distribuições condicionais são as da tabela a seguir.

\(s = 1\)\(s = 2\)\(s = 3\)\(s = 4\)
\(\theta = a\)\(0\)\(1/3\)\(1/3\)\(1/3\)
\(\theta = b\)\(0\)\(1/3\)\(1/3\)\(1/3\)

Vemos, portanto, que as distribuições condicionais de fato não dependem de \(\theta\).

Agora combinamos os Teoremas 8.1.1 e 8.1.2 para mostrar que podemos restringir nossa atenção a estimadores \(T\) que dependem dos dados apenas por meio do valor de uma estatística suficiente \(U\). Pelo Teorema 8.1.2, podemos denotar a medida de probabilidade condicional12 de \(s\), dado \(U(s) = u\), por \(P(\cdot \mid U = u)\), isto é, essa medida de probabilidade13 não depende de \(\theta\), pois é a mesma para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\).

Para um estimador \(T\) de \(\psi(\theta)\) tal que \(E_\theta(T)\) é finito para todo \(\theta\), tome \(T_U(s)\) igual à esperança condicional14 de \(T\) dado o valor de \(U(s)\), ou seja, \[ T_U(s) = E_{P(\cdot \mid U = U(s))}(T), \] isto é, \(T_U\) é o valor médio15 de \(T\) quando tomamos a média usando \(P(\cdot \mid U = U(s))\). Observe que \(T_U(s_1) = T_U(s_2)\) sempre que \(U(s_1) = U(s_2)\) (isso porque \(P(\cdot \mid U = U(s_1))\) \({}= P(\cdot \mid U = U(s_2))\)) e, assim, \(T_U\) depende dos dados \(s\) apenas por meio do valor de \(U(s)\).

Teorema 8.1.3 (Rao–Blackwell)

Suponha que \(U\) é uma estatística suficiente e que \(E_\theta(T^2)\) é finito para todo \(\theta\). Então \(\mathrm{MSE}_\theta(T_U) \le \mathrm{MSE}_\theta(T)\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\).

Demonstração.

Seja \(P_{\theta,U}\) a medida de probabilidade marginal de \(U\) induzida por \(P_\theta\). Pelo teorema da esperança16 total (veja o Teorema 3.5.2), temos que \[ \mathrm{MSE}_\theta(T) = E_{P_{\theta,U}}\Bigl(E_{P(\cdot \mid U = u)}((T - \psi(\theta))^2)\Bigr), \] em que \(E_{P(\cdot \mid U = u)}((T - \psi(\theta))^2)\) denota o MSE condicional de \(T\), dado \(U = u\). Agora, pelo Teorema 8.1.1, \begin{equation} E_{P(\cdot \mid U = u)}((T - \psi(\theta))^2) = \Var_{P(\cdot \mid U = u)}(T) + (E_{P(\cdot \mid U = u)}(T) - \psi(\theta))^2. \tag{8.1.3}\end{equation} Como os dois termos em (8.1.3) são não negativos, e lembrando a definição de \(T_U\), temos \begin{align*} \mathrm{MSE}_\theta(T) &= E_{P_{\theta,U}}(\Var_{P(\cdot \mid U = u)}(T)) + E_{P_{\theta,U}}((T_U(s) - \psi(\theta))^2)\\ &\ge E_{P_{\theta,U}}((T_U(s) - \psi(\theta))^2). \end{align*} Agora \((T_U(s) - \psi(\theta))^2\) \({}= E_{P(\cdot \mid U = u)}((T_U(s) - \psi(\theta))^2)\) (Teorema 3.5.4) e, assim, pelo teorema da esperança total, \begin{align*} E_{P_{\theta,U}}((T_U(s) - \psi(\theta))^2) &= E_{P_{\theta,U}}\Bigl(E_{P(\cdot \mid U = u)}((T_U(s) - \psi(\theta))^2)\Bigr)\\ &= E_{P_\theta}((T_U(s) - \psi(\theta))^2) = \mathrm{MSE}_\theta(T_U) \end{align*} e o teorema está provado.

O Teorema 8.1.3 mostra que sempre podemos melhorar (ou, pelo menos, não piorar) qualquer estimador \(T\) que tenha segundo momento finito, substituindo \(T(s)\) pela estimativa \(T_U(s)\). Esse processo às vezes é chamado de Rao–Blackwellização de um estimador.

Observe que tomar \(E = E_\theta\) e \(c = \psi(\theta)\) no Teorema 8.1.1 implica \begin{equation} \mathrm{MSE}_\theta(T) = \Var_\theta(T) + (E_\theta(T) - \psi(\theta))^2. \tag{8.1.4}\end{equation} Assim, o MSE de \(T\) pode ser decomposto como a soma da variância17 de \(T\) com o quadrado do viés de \(T\) (isso também foi provado no Teorema 6.3.1).

O Teorema 8.1.1 tem outra consequência importante, pois (8.1.4) é minimizado tomando \(\psi(\theta) = E_\theta(T)\). Isso indica que, em média, o estimador \(T\) fica mais perto (em termos de erro quadrático) de \(E_\theta(T)\) do que de qualquer outro valor. Assim, se estamos amostrando da distribuição especificada por \(\theta\), \(T(s)\) é uma estimativa natural de \(E_\theta(T)\). Portanto, para uma característica geral \(\psi(\theta)\), faz sentido restringir a atenção a estimadores com viés igual a 0. Isso leva à definição a seguir.

Definição 8.1.1

Um estimador \(T\) de \(\psi(\theta)\) é não viesado18 se \(E_\theta(T) = \psi(\theta)\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\).

Observe que, para estimadores não viesados com segundo momento finito, (8.1.4) se torna \[ \mathrm{MSE}_\theta(T) = \Var_\theta(T). \] Portanto, nossa busca por um estimador ótimo se tornou a busca por um estimador não viesado de menor variância. Se tal estimador existe, damos a ele um nome especial.

Definição 8.1.2

Um estimador não viesado de \(\psi(\theta)\) com a menor variância para cada \(\theta \in \negrito{\Omega}\) é chamado de estimador não viesado de variância uniformemente mínima19 (UMVU).

É importante notar que o teorema de Rao–Blackwell (Teorema 8.1.3) também se aplica a estimadores não viesados. Isso porque a Rao–Blackwellização de um estimador não viesado produz um estimador não viesado, como mostra o resultado a seguir.

Teorema 8.1.4 (Rao–Blackwell para estimadores não viesados)

Se \(T\) tem segundo momento finito, é não viesado para \(\psi(\theta)\) e \(U\) é uma estatística suficiente, então \(E_\theta(T_U) = \psi(\theta)\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\) (logo, \(T_U\) também é não viesado para \(\psi(\theta)\)) e \(\Var_\theta(T_U) \le \Var_\theta(T)\).

Demonstração.

Usando o teorema da esperança total (Teorema 3.5.2), temos \[ E_\theta(T_U) = E_{P_{\theta,U}}(T_U) = E_{P_{\theta,U}}\bigl(E_{P(\cdot \mid U = u)}(T)\bigr) = E_\theta(T) = \psi(\theta). \] Assim, \(T_U\) é não viesado para \(\psi(\theta)\) e \(\mathrm{MSE}_\theta(T) = \Var_\theta(T)\), \(\mathrm{MSE}_\theta(T_U) = \Var_\theta(T_U)\). Aplicando o Teorema 8.1.3, obtemos \(\Var_\theta(T_U) \le \Var_\theta(T)\).

Há muitas situações em que a teoria da estimação20 não viesada leva a bons estimadores. O exemplo a seguir, porém, mostra que em alguns problemas não existem estimadores não viesados e, portanto, a teoria tem algumas limitações.

Exemplo 8.1.2 A Inexistência de um Estimador Não Viesado

Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra da Bernoulli\((\theta)\) e que queremos encontrar um estimador UMVU de \(\psi(\theta) = \theta/(1 - \theta)\), a chance a favor da ocorrência de um sucesso. Pelo Teorema 8.1.4, podemos restringir nossa busca a estimadores não viesados \(T\) que sejam funções da estatística suficiente \(n\bar{x}\).

Tal \(T\) satisfaz \(E_\theta(T(n\bar{X})) = \theta/(1 - \theta)\) para todo \(\theta \in [0, 1]\). Lembrando que \(n\bar{X} \sim \text{Binomial}(n, \theta)\), isso implica \[ \frac{\theta}{1 - \theta} = \sum_{k=0}^{n} T(k) \binom{n}{k} \theta^k (1 - \theta)^{n-k} \] para todo \(\theta \in [0, 1]\). Pelo teorema binomial21, temos \[ (1 - \theta)^{n-k} = \sum_{l=0}^{n-k} \binom{n-k}{l} (-1)^l \theta^l. \] Substituindo isso na expressão anterior para \(\theta/(1 - \theta)\) e escrevendo-a em termos de potências de \(\theta\), chegamos à igualdade a seguir:22 \begin{equation} \frac{\theta}{1 - \theta} = \sum_{m=0}^{n} \left( \sum_{k=0}^{m} T(k) \binom{n}{k} (-1)^{m-k} \right) \theta^m. \tag{8.1.5}\end{equation} Agora, o lado esquerdo de (8.1.5) vai para \(\infty\) quando \(\theta \to 1\), mas o lado direito é um polinômio em \(\theta\), que é limitado em \([0, 1]\). Portanto, não pode existir um estimador não viesado de \(\psi\).

Se uma característica \(\psi(\theta)\) tem um estimador não viesado, diz-se que ela é U-estimável. Deve-se ter em mente, porém, que o fato de um parâmetro não ser U-estimável não significa que não podemos estimá-lo! Por exemplo, \(\psi\) no Exemplo 8.1.2 é uma função injetora23 de \(\theta\); assim, o EMV de \(\psi\) é dado por \(\bar{x}/(1 - \bar{x})\) (veja o Teorema 6.2.1), e esse parece um estimador razoável, mesmo sendo viesado.

8.1.2 Completude e o Teorema de Lehmann–Scheffé

Em certas circunstâncias, se existe um estimador não viesado que é função de uma estatística suficiente \(U\), então só existe um estimador assim; logo, ele tem de ser UMVU. Precisamos do conceito de completude24 para estabelecer isso.

Definição 8.1.3

Uma estatística \(U\) é completa se qualquer função \(h\) de \(U\) que satisfaça \(E_\theta(h(U)) = 0\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\) também satisfaz \(h(U(s)) = 0\) com probabilidade 1 para cada \(\theta \in \negrito{\Omega}\) (isto é, \(P_\theta(\{s : h(U(s)) = 0\}) = 1\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\)).

Em teoria das probabilidades, tratamos duas funções como equivalentes se elas diferem apenas num conjunto de probabilidade 0, pois a probabilidade de as funções assumirem valores diferentes num valor observado da resposta é 0. Assim, na Definição 8.1.3, não precisamos distinguir entre \(h\) e a constante 0. Portanto, uma estatística \(U\) é completa se o único estimador não viesado de 0 baseado em \(U\) é o próprio 0.

Podemos agora obter o resultado a seguir.

Teorema 8.1.5 (Lehmann–Scheffé)

Se \(U\) é uma estatística suficiente completa e se \(T\) depende dos dados apenas por meio do valor de \(U\), tem segundo momento finito para todo \(\theta\) e é não viesado para \(\psi(\theta)\), então \(T\) é UMVU.

Demonstração.

Suponha que \(T^*\) também é um estimador não viesado de \(\psi(\theta)\). Pelo Teorema 8.1.4, podemos supor que \(T^*\) depende dos dados apenas por meio do valor de \(U\). Então existem funções \(h\) e \(h^*\) tais que \(T(s) = h(U(s))\) e \(T^*(s) = h^*(U(s))\) e \[ 0 = E_\theta(T) - E_\theta(T^*) = E_\theta(h(U)) - E_\theta(h^*(U)) = E_\theta(h(U) - h^*(U)). \] Pela completude de \(U\), temos \(h(U) = h^*(U)\) com probabilidade 1 para cada \(\theta \in \negrito{\Omega}\), o que implica \(T = T^*\) com probabilidade 1 para cada \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Isso diz que existe, essencialmente, um único estimador não viesado de \(\psi(\theta)\) baseado em \(U\) e, portanto, ele tem de ser UMVU.

O teorema de Rao–Blackwell para estimadores não viesados (Teorema 8.1.4), junto com o teorema de Lehmann–Scheffé, fornece um método para obter um estimador UMVU de \(\psi(\theta)\). Suponha que conseguimos encontrar um estimador não viesado \(T\) com segundo momento finito. Se também temos uma estatística suficiente completa \(U\), então, pelo Teorema 8.1.4, \(T_U(s) = E_{P(\cdot \mid U = U(s))}(T)\) é não viesado para \(\psi(\theta)\) e depende dos dados apenas por meio do valor de \(U\), pois \(T_U(s_1) = T_U(s_2)\) sempre que \(U(s_1) = U(s_2)\). Portanto, pelo Teorema 8.1.5, \(T_U\) é UMVU para \(\psi(\theta)\).

Não é necessário que, num dado problema, exista uma estatística suficiente completa. Na verdade, pode-se provar que a única candidata a isso é uma estatística suficiente minimal25 (lembre a definição na Seção 6.1.1). Assim, num dado problema, precisamos obter uma estatística suficiente minimal e, então, determinar se ela é completa ou não. Ilustramos isso com um exemplo.

Exemplo 8.1.3 Normal de Locação

Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu \in R^1\) é desconhecido e \(\sigma_0^2 > 0\) é conhecido. No Exemplo 6.1.7, mostramos que \(\bar{x}\) é uma estatística suficiente minimal para esse modelo.

Na verdade, \(\bar{x}\) também é completa para esse modelo. A demonstração disso é um pouco trabalhosa e é apresentada na Seção 8.5.

Como \(\bar{x}\) é uma estatística suficiente minimal completa, \(T(\bar{x})\) é um estimador UMVU de sua média \(E_\mu(T(\bar{X}))\) sempre que \(T\) tem segundo momento finito para todo \(\mu \in R^1\). Em particular, \(\bar{x}\) é o estimador UMVU de \(\mu\), pois \(E_\mu(\bar{X}) = \mu\) e \(E_\mu(\bar{X}^2)\) \({}= (\sigma_0^2/n)\) \({}+ \mu^2 < \infty\). Além disso, \(\bar{x} + \sigma_0 z_p\) é o estimador UMVU de \(E_\mu(\bar{X} + \sigma_0 z_p)\) \({}= \mu + \sigma_0 z_p\) (o \(p\)-ésimo quantil da verdadeira distribuição).

Os argumentos necessários para mostrar a completude de uma estatística suficiente minimal num problema costumam ser parecidos com o que foi exigido no Exemplo 8.1.3 (veja o Desafio 8.1.27). Em vez de entrar nesses detalhes técnicos aqui, citamos alguns exemplos importantes em que a estatística suficiente minimal é completa.

Exemplo 8.1.4 Normal de Locação e Escala

Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma^2)\), em que \(\mu \in R^1\) e \(\sigma > 0\) são desconhecidos. O parâmetro desse modelo é bidimensional e é dado por \((\mu, \sigma^2) \in R^1 \times (0, \infty)\).

Mostramos, no Exemplo 6.1.8, que \((\bar{x}, s^2)\) é uma estatística suficiente minimal para esse modelo. Na verdade, pode-se mostrar que \((\bar{x}, s^2)\) é uma estatística suficiente minimal completa. Portanto, \(T(\bar{x}, s^2)\) é um estimador UMVU de \(E_\theta(T(\bar{X}, S^2))\) sempre que o segundo momento de \(T(\bar{x}, s^2)\) é finito para todo \((\mu, \sigma^2)\). Em particular, \(\bar{x}\) é o estimador UMVU de \(\mu\) e \(s^2\) é UMVU para \(\sigma^2\).

Exemplo 8.1.5 Modelos Livres de Distribuição

Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de alguma distribuição contínua em \(R^1\). O modelo estatístico é formado por todas as distribuições contínuas em \(R^1\).

Pode-se mostrar que as estatísticas de ordem26 \((x_{(1)}, \ldots, x_{(n)})\) formam uma estatística suficiente minimal completa para esse modelo. Portanto, \(T(x_{(1)}, \ldots, x_{(n)})\) é UMVU para \[ E_\theta(T(X_{(1)}, \ldots, X_{(n)})) \] sempre que \begin{equation} E_\theta(T^2(X_{(1)}, \ldots, X_{(n)})) < \infty \tag{8.1.6}\end{equation} para toda distribuição contínua. Em particular, isso acontece se \(T : R^n \to R^1\) é limitada. Por exemplo, se \[ T(x_{(1)}, \ldots, x_{(n)}) = \frac{1}{n} \sum_{i=1}^{n} I_A(x_{(i)}), \] a frequência relativa27 do evento \(A\) na amostra, então \(T(x_{(1)}, \ldots, x_{(n)})\) é UMVU para \(E_\theta(T(X_{(1)}, \ldots, X_{(n)}))\) \({}= P_\theta(A)\).

Agora mude a hipótese do modelo, de modo que \((x_1, \ldots, x_n)\) seja uma amostra de alguma distribuição contínua em \(R^1\) que possui seus primeiros \(m\) momentos. Novamente, pode-se mostrar que as estatísticas de ordem formam uma estatística suficiente minimal completa. Portanto, \(T(x_{(1)}, \ldots, x_{(n)})\) é UMVU para \(E_\theta(T(X_{(1)}, \ldots, X_{(n)}))\) sempre que (8.1.6) vale para toda distribuição contínua que possui seus primeiros \(m\) momentos. Por exemplo, se \(m = 2\), isso implica que \(T(x_{(1)}, \ldots, x_{(n)}) = \bar{x}\) é UMVU para \(E_\theta(\bar{X})\). Quando \(m = 4\), temos que \(s^2\) é UMVU para a variância populacional (veja o Exercício 8.1.2).

8.1.3 A Desigualdade de Cramer–Rao (Avançado)

Existe uma desigualdade fundamental que vale para a variância de um estimador \(T\). Ela é dada pela desigualdade de Cramer–Rao28 (às vezes chamada de desigualdade da informação). Ela é um corolário da desigualdade a seguir.

Teorema 8.1.6 (Desigualdade da covariância29)

Suponha \(T, U_\theta : S \to R^1\) e \(E_\theta(T^2) < \infty\), \(0 < E_\theta(U_\theta^2) < \infty\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Então \[ \Var_\theta(T) \ge \frac{(\Cov_\theta(T, U_\theta))^2}{\Var_\theta(U_\theta)} \] para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Vale a igualdade se e somente se \[ T(s) = E_\theta(T) + \frac{\Cov_\theta(T, U_\theta)}{\Var_\theta(U_\theta)}(U_\theta(s) - E_\theta(U_\theta(s))) \] com probabilidade 1 para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\) (isto é, se e somente se \(T(s)\) e \(U_\theta(s)\) são linearmente relacionados).

Demonstração.

Esse resultado decorre imediatamente da desigualdade de Cauchy–Schwartz30 (Teorema 3.6.3).

Agora suponha que \(\negrito{\Omega}\) é um subintervalo aberto de \(R^1\) e tomamos \begin{equation} U_\theta(s) = S(\theta \mid s) = \frac{\partial \ln f_\theta(s)}{\partial \theta}, \tag{8.1.7}\end{equation} isto é, \(U_\theta\) é a função escore31. Suponha que valem as condições discutidas na Seção 6.5, de modo que \(E_\theta(S(\theta \mid s)) = 0\) para todo \(\theta\) e a informação de Fisher32 \(I(\theta) = \Var_\theta(S(\theta \mid s))\) é finita. Então, usando \[ \frac{\partial \ln f_\theta(s)}{\partial \theta} = \frac{\partial f_\theta(s)}{\partial \theta}\,\frac{1}{f_\theta(s)}, \] temos \begin{align} &\Cov_\theta(T, U_\theta) \notag\\ &\quad = E_\theta\left(T(s)\frac{\partial \ln f_\theta(s)}{\partial \theta}\right) = E_\theta\left(T(s)\frac{\partial f_\theta(s)}{\partial \theta}\,\frac{1}{f_\theta(s)}\right) \notag\\ &\quad = \sum_s \left(T(s)\frac{\partial f_\theta(s)}{\partial \theta}\,\frac{1}{f_\theta(s)}\right) f_\theta(s) = \frac{\partial}{\partial \theta} \sum_s T(s) f_\theta(s) = \frac{\partial E_\theta(T)}{\partial \theta}, \tag{8.1.8} \end{align} no caso discreto, em que supusemos condições como as discutidas na Seção 6.5, de modo que podemos passar a derivada parcial para dentro da soma. Um argumento semelhante dá a igualdade (8.1.8) também no caso contínuo.

A desigualdade da covariância, aplicada com \(U_\theta\) especificada como em (8.1.7) e usando (8.1.8), dá o resultado a seguir.

Corolário 8.1.1 (Desigualdade de Cramer–Rao ou da informação)

Sob essas condições, \[ \Var_\theta(T) \ge \left(\frac{\partial E_\theta(T)}{\partial \theta}\right)^2 (I(\theta))^{-1} \] para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Vale a igualdade se e somente se \[ T(s) = E_\theta(T) + \frac{\partial E_\theta(T)}{\partial \theta}(I(\theta))^{-1} S(\theta \mid s) \] com probabilidade 1 para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\).

A desigualdade de Cramer–Rao fornece uma cota inferior33 fundamental para a variância de um estimador \(T\). Por (8.1.4), sabemos que a variância é uma medida relevante da precisão de um estimador apenas quando o estimador é não viesado; por isso, reenunciamos o Corolário 8.1.1 para esse caso.

Corolário 8.1.2

Sob as condições do Corolário 8.1.1, quando \(T\) é um estimador não viesado de \(\psi(\theta)\), \[ \Var_\theta(T) \ge (\psi'(\theta))^2 (I(\theta))^{-1} \] para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Vale a igualdade se e somente se \begin{equation} T(s) = \psi(\theta) + \psi'(\theta)(I(\theta))^{-1} S(\theta \mid s) \tag{8.1.9}\end{equation} com probabilidade 1 para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\).

Observe que, quando \(\psi(\theta) = \theta\), o Corolário 8.1.2 diz que a variância do estimador não viesado \(T\) é limitada inferiormente pelo inverso da informação de Fisher. De modo mais geral, quando \(\psi\) é uma transformação injetora e suave, temos (usando o Desafio 6.5.19) que a variância de um \(T\) não viesado é de novo limitada inferiormente pelo inverso da informação de Fisher, mas desta vez o modelo usa a parametrização em termos de \(\psi(\theta)\).

O Corolário 8.1.2 tem várias consequências interessantes. Primeiro, se obtemos um estimador não viesado \(T\) cuja variância atinge a cota inferior, sabemos imediatamente que ele é UMVU. Segundo, sabemos que qualquer estimador não viesado que atinge a cota inferior tem a forma dada em (8.1.9). Observe que o lado direito de (8.1.9) precisa ser independente de \(\theta\) para que isso seja um estimador. Se não for, então não há estimadores UMVU cuja variância atinja a cota inferior. O exemplo a seguir mostra que há casos em que existem estimadores UMVU, mas sua variância não atinge a cota inferior.

Exemplo 8.1.6 Modelo Poisson\((\lambda)\)

Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra da distribuição Poisson\((\lambda)\), em que \(\lambda > 0\) é desconhecido. A log-verossimilhança34 é dada por \(l(\lambda \mid x_1, \ldots, x_n)\) \({}= n\bar{x} \ln \lambda - n\lambda\); assim, a função escore é dada por \(S(\lambda \mid x_1, \ldots, x_n)\) \({}= n\bar{x}/\lambda - n\). Agora \[ \frac{\partial S(\lambda \mid x_1, \ldots, x_n)}{\partial \lambda} = -\frac{n\bar{x}}{\lambda^2}, \] e, portanto, \[ I(\lambda) = E_\lambda\left(\frac{n\bar{x}}{\lambda^2}\right) = \frac{n}{\lambda}. \]

Suponha que estamos estimando \(\lambda\). Então a cota inferior de Cramer–Rao é dada por \(I^{-1}(\lambda) = \lambda/n\). Notando que \(\bar{x}\) é não viesado para \(\lambda\) e que \(\Var_\lambda(\bar{X}) = \lambda/n\), vemos imediatamente que \(\bar{x}\) é UMVU e atinge a cota inferior.

Agora suponha que estamos estimando \(\psi(\lambda)\) \({}= e^{-\lambda}\) \({}= P_\lambda(\{0\})\). A cota inferior de Cramer–Rao é igual a \(\lambda e^{-2\lambda}/n\) e \begin{align*} \psi(\lambda) + \psi'(\lambda) I^{-1}(\lambda) S(\lambda \mid x_1, \ldots, x_n) &= e^{-\lambda} - e^{-\lambda}\left(\frac{\lambda}{n}\right)\left(\frac{n\bar{x}}{\lambda} - n\right)\\ &= e^{-\lambda}(1 - \bar{x} + \lambda), \end{align*} que claramente não é independente de \(\lambda\). Assim, não existe um estimador UMVU de \(\psi\) que atinja a cota inferior.

Existe um estimador UMVU de \(\psi\)? Observe que, quando \(n = 1\), \(I_{\{0\}}(x_1)\) é um estimador não viesado de \(\psi\). Acontece que \(\bar{x}\) é (para todo \(n\)) uma estatística suficiente minimal completa para esse modelo; assim, pelo teorema de Lehmann–Scheffé, \(I_{\{0\}}(x_1)\) é UMVU para \(\psi\). Além disso, \(I_{\{0\}}(X_1)\) tem variância \[ P_\lambda(X_1 = 0)(1 - P_\lambda(X_1 = 0)) = e^{-\lambda}(1 - e^{-\lambda}), \] pois \(I_{\{0\}}(X_1) \sim \text{Bernoulli}(e^{-\lambda})\). Isso implica que \(e^{-\lambda}(1 - e^{-\lambda}) > \lambda e^{-2\lambda}\).

Em geral, temos que \[ \frac{1}{n} \sum_{i=1}^{n} I_{\{0\}}(x_i) \] é um estimador não viesado de \(\psi\), mas não é uma função de \(\bar{x}\). Assim, não podemos aplicar o teorema de Lehmann–Scheffé, mas podemos Rao–Blackwellizar esse estimador. Portanto, o estimador UMVU de \(\psi\) é dado por \[ \frac{1}{n} \sum_{i=1}^{n} E(I_{\{0\}}(X_i) \mid \bar{X} = \bar{x}). \]

Para determinar esse estimador em forma fechada, raciocinamos da seguinte maneira. A função de probabilidade condicional35 de \((X_1, \ldots, X_n)\) dado \(\bar{X} = \bar{x}\), como \(n\bar{X}\) tem distribuição Poisson\((n\lambda)\), é \[ \left\{\frac{\lambda^{x_1}}{x_1!} \cdots \frac{\lambda^{x_n}}{x_n!} e^{-n\lambda}\right\} \left\{\frac{(n\lambda)^{n\bar{x}}}{(n\bar{x})!} e^{-n\lambda}\right\}^{-1} = \binom{n\bar{x}}{x_1 \; \ldots \; x_n} \left(\frac{1}{n}\right)^{x_1} \cdots \left(\frac{1}{n}\right)^{x_n}, \] isto é, \((X_1, \ldots, X_n)\) dado \(\bar{X} = \bar{x}\) tem distribuição Multinomial\((n\bar{x}, 1/n, \ldots, 1/n)\). Assim, o estimador UMVU é dado por \[ E(I_{\{0\}}(X_1) \mid \bar{X} = \bar{x}) = P(X_1 = 0 \mid \bar{X} = \bar{x}) = \left(1 - \frac{1}{n}\right)^{n\bar{x}} \] pois \(X_i \mid \bar{X}\) \({}= \bar{x} \sim \text{Binomial}(n\bar{x}, 1/n)\) para cada \(i = 1, \ldots, n\).

Com certeza, não é nada óbvio, pela forma funcional, que esse estimador seja não viesado, muito menos UMVU. Assim, esse resultado pode ser visto como uma aplicação um tanto notável da teoria.

Lembre agora os Teoremas 6.5.2 e 6.5.3. As consequências desses resultados, com algumas condições adicionais, são que o EMV de \(\theta\) é assintoticamente não viesado para \(\theta\) e que a variância assintótica do EMV está na cota inferior da informação. Isso muitas vezes é interpretado como querendo dizer que, com amostras grandes, o EMV faz uso completo da informação sobre \(\theta\) contida nos dados.

Resumo da Seção 8.1

Exercícios

8.1.1 Suponha que um modelo estatístico é dado pelas duas distribuições da tabela a seguir.

\(s = 1\)\(s = 2\)\(s = 3\)\(s = 4\)
\(f_a(s)\)\(1/3\)\(1/6\)\(1/12\)\(5/12\)
\(f_b(s)\)\(1/2\)\(1/4\)\(1/6\)\(1/12\)

Se \(T : \{1, 2, 3, 4\} \to \{1, 2, 3, 4\}\) é definida por \(T(1) = T(2) = 1\) e \(T(s) = s\) nos demais casos, prove que \(T\) é uma estatística suficiente. Obtenha as distribuições condicionais de \(s\) dado \(T(s)\) e mostre que elas não dependem de \(\theta\).

8.1.2 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição com média \(\mu\) e variância \(\sigma^2\). Prove que \(s^2 = (n - 1)^{-1} \sum_{i=1}^{n} (x_i - \bar{x})^2\) é não viesado para \(\sigma^2\).

8.1.3 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu \in R^1\) é desconhecido e \(\sigma_0^2\) é conhecido. Determine um estimador UMVU do segundo momento \(\mu^2 + \sigma_0^2\).

8.1.4 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu \in R^1\) é desconhecido e \(\sigma_0^2\) é conhecido. Determine um estimador UMVU do primeiro quartil \(\mu + \sigma_0 z_{0{,}25}\).

8.1.5 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu \in R^1\) é desconhecido e \(\sigma_0^2\) é conhecido. \(2\bar{x} + 3\) é um estimador UMVU de alguma coisa? Se for, é UMVU para quê? Justifique sua resposta.

8.1.6 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Bernoulli\((\theta)\), em que \(\theta \in [0, 1]\) é desconhecido. Determine um estimador UMVU de \(\theta\) (use o fato de que uma estatística suficiente minimal para esse modelo é completa).

8.1.7 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Gama\((\alpha_0, \beta)\), em que \(\alpha_0\) é conhecido e \(\beta > 0\) é desconhecido. Usando o fato de que \(\bar{x}\) é uma estatística suficiente completa (veja o Desafio 8.1.27), determine um estimador UMVU de \(\beta^{-1}\).

8.1.8 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu_0, \sigma^2)\), em que \(\mu_0\) é conhecido e \(\sigma^2 > 0\) é desconhecido. Mostre que \(\sum_{i=1}^{n} (x_i - \mu_0)^2\) é uma estatística suficiente para esse problema. Usando o fato de que ela é completa, determine um estimador UMVU para \(\sigma^2\).

8.1.9 Suponha que um modelo estatístico é formado por todas as distribuições contínuas em \(R^1\). Com base numa amostra de tamanho \(n\), determine um estimador UMVU de \(P((-1, 1))\), em que \(P\) é a verdadeira medida de probabilidade. Justifique sua resposta.

8.1.10 Suponha que um modelo estatístico é formado por todas as distribuições contínuas em \(R^1\) que têm segundo momento finito. Com base numa amostra de tamanho \(n\), determine um estimador UMVU de \(\mu^2\), em que \(\mu\) é a verdadeira média. Justifique sua resposta. (Sugestão: encontre um estimador não viesado para \(n = 2\), Rao–Blackwellize esse estimador para uma amostra de tamanho \(n\) e, então, use o teorema de Lehmann–Scheffé.)

8.1.11 O estimador determinado no Exercício 8.1.10 também é não viesado para \(\mu^2\) quando o modelo estatístico é formado por todas as distribuições contínuas em \(R^1\) que têm primeiro momento finito. Esse estimador continua sendo UMVU para \(\mu^2\)?

Problemas

8.1.12 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Uniforme36\([0, \theta]\), em que \(\theta > 0\) é desconhecido. Mostre que \(x_{(n)}\) é uma estatística suficiente e determine sua distribuição. Usando o fato de que \(x_{(n)}\) é completa, determine um estimador UMVU de \(\theta\).

8.1.13 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Bernoulli\((\theta)\), em que \(\theta \in [0, 1]\) é desconhecido. Determine, então, a distribuição condicional de \((x_1, \ldots, x_n)\) dado o valor da estatística suficiente \(\bar{x}\).

8.1.14 Prove que \(L(\theta, a) = (\theta - a)^2\) satisfaz \[ L(\theta, \alpha a_1 + (1 - \alpha) a_2) \le \alpha L(\theta, a_1) + (1 - \alpha) L(\theta, a_2) \] quando \(a\) varia num subintervalo de \(R^1\). Use esse resultado junto com a desigualdade de Jensen37 (Teorema 3.6.4) para provar o teorema de Rao–Blackwell.

8.1.15 Prove que \(L(\theta, a) = \lvert\theta - a\rvert\) satisfaz \[ L(\theta, \alpha a_1 + (1 - \alpha) a_2) \le \alpha L(\theta, a_1) + (1 - \alpha) L(\theta, a_2) \] quando \(a\) varia num subintervalo de \(R^1\). Use esse resultado junto com a desigualdade de Jensen (Teorema 3.6.4) para provar o teorema de Rao–Blackwell para o erro absoluto. (Sugestão: primeiro mostre que \(\lvert x + y\rvert \le \lvert x\rvert\) \({}+ \lvert y\rvert\) para quaisquer \(x\) e \(y\).)

8.1.16 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma^2)\), em que \((\mu, \sigma^2) \in R^1 \times (0, \infty)\) é desconhecido. Mostre que o estimador ótimo (no sentido de minimizar o MSE) da forma \(cs^2\) para \(\sigma^2\) é dado por \(c = (n - 1)/(n + 1)\). Determine o viés desse estimador e mostre que ele vai para 0 quando \(n \to \infty\).

8.1.17 Prove que, se uma estatística \(T\) é completa para um modelo e \(U = h(T)\) para uma função injetora \(h\), então \(U\) também é completa.

8.1.18 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma^2)\), em que \((\mu, \sigma^2) \in R^1 \times (0, \infty)\) é desconhecido. Obtenha um estimador UMVU do desvio padrão38 \(\sigma\). (Sugestão: calcule o valor esperado39 do desvio padrão40 amostral \(s\).)

8.1.19 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma^2)\), em que \((\mu, \sigma^2) \in R^1 \times (0, \infty)\) é desconhecido. Obtenha um estimador UMVU do primeiro quartil \(\mu + \sigma z_{0{,}25}\). (Sugestão: Problema 8.1.17.)41

8.1.20 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\theta \in \negrito{\Omega}\) \({}= \{\mu_1, \mu_2\}\) é desconhecido e \(\sigma_0^2 > 0\) é conhecido. Estabeleça que \(\bar{x}\) é uma estatística suficiente minimal para esse modelo, mas que não é completa.

8.1.21 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu \in R^1\) é desconhecido e \(\sigma_0^2\) é conhecido. Determine a cota inferior da informação, para um estimador não viesado, quando consideramos a estimação do segundo momento \(\mu^2 + \sigma_0^2\). O estimador UMVU do Exercício 8.1.3 atinge a cota inferior da informação?

8.1.22 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Gama\((\alpha_0, \beta)\), em que \(\alpha_0\) é conhecido e \(\beta > 0\) é desconhecido. Determine a cota inferior da informação para a estimação de \(\beta^{-1}\) por estimadores não viesados e determine se o estimador UMVU obtido no Exercício 8.1.7 a atinge.

8.1.23 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra da distribuição com densidade \(f_\theta(x) = \theta x^{\theta - 1}\) para \(x \in [0, 1]\), em que \(\theta > 0\) é desconhecido. Determine a cota inferior da informação para a estimação de \(\theta\) por estimadores não viesados. Existe um estimador UMVU com variância na cota inferior para esse problema?

8.1.24 Suponha que uma estatística \(T\) é uma estatística completa42 baseada em algum modelo estatístico. Um submodelo é um modelo estatístico formado apenas por algumas das distribuições do modelo original. Por que \(T\) não é necessariamente completa para um submodelo?

8.1.25 Suponha que uma estatística \(T\) é uma estatística completa baseada em algum modelo estatístico. Se construímos um modelo maior que contém todas as distribuições do modelo original e é tal que qualquer conjunto com probabilidade 0 para toda distribuição do modelo original também tem probabilidade 0 para toda distribuição do modelo maior, prove que \(T\) também é completa para o modelo maior.

Desafios

8.1.26 Se \(X\) é uma variável aleatória43 tal que \(E(X)\) não existe ou é infinito, mostre que \(E((X - c)^2) = \infty\) para qualquer constante \(c\).

8.1.27 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Gama\((\alpha_0, \beta)\), em que \(\alpha_0\) é conhecido e \(\beta > 0\) é desconhecido. Mostre que \(\bar{x}\) é uma estatística suficiente minimal completa.

8.2 Testes de Hipóteses Ótimos

Suponha que queiramos avaliar uma hipótese sobre a característica real \(\psi(\theta)\) do modelo \(\{f_\theta : \theta \in \negrito{\Omega}\}\). Tipicamente, ela terá a forma \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\), em que especificamos um valor para \(\psi\). Depois de observar os dados \(s\), queremos avaliar se temos ou não evidência contra \(H_0\).

Na Seção 6.3.3, discutimos métodos para avaliar uma hipótese desse tipo com base no EMV plug-in de \(\psi(\theta)\). Eles envolviam calcular um valor-p como medida de quão surpreendentes são os dados \(s\) quando se supõe que a hipótese nula44 é verdadeira. Se \(s\) é surpreendente para cada uma das distribuições \(f_\theta\) com \(\psi(\theta) = \psi_0\), então temos evidência contra \(H_0\). O desenvolvimento desses procedimentos se baseou em grande parte na justificativa intuitiva da função de verossimilhança.

8.2.1 A Função Poder de um Teste

Intimamente associado a um procedimento específico de cálculo de um valor-p está o conceito de função poder45 \(\beta(\theta)\), definido na Seção 6.3.6. Para isso, especificamos um valor crítico \(\alpha\) tal que declaramos os resultados do teste estatisticamente significativos sempre que o valor-p for menor ou igual a \(\alpha\). O poder \(\beta(\theta)\) é então a probabilidade de o valor-p ser menor ou igual a \(\alpha\) quando amostramos de \(f_\theta\). Quanto maior o valor de \(\beta(\theta)\), quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\), melhor o procedimento detecta afastamentos de \(H_0\). A função poder é, portanto, uma medida da sensibilidade do procedimento de teste para detectar afastamentos de \(H_0\).

Lembre-se do seguinte exemplo fundamental.

Exemplo 8.2.1 Modelo Normal de Locação46

Suponha que temos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) do modelo \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu \in R^1\) é desconhecido e \(\sigma_0^2 > 0\) é conhecido, e queremos avaliar a hipótese nula \(H_0 : \mu = \mu_0\). No Exemplo 6.3.9, mostramos que um teste sensato para esse problema se baseia na estatística \(z\) \[ z = \frac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}, \] com \(Z \sim N(0, 1)\) sob \(H_0\). O valor-p é então dado por \[ P_{\mu_0}\left(\lvert Z\rvert \ge \left\lvert\frac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert\right) = 2\left[1 - \Phi\left(\left\lvert\frac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert\right)\right], \] em que \(\Phi\) denota a função de distribuição \(N(0, 1)\).

No Exemplo 6.3.18, mostramos que, para o valor crítico \(\alpha\), a função poder do teste \(z\) é dada por \begin{align*} \beta(\mu) &= P_\mu\left(2\left[1 - \Phi\left(\left\lvert\frac{\bar X - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert\right)\right] < \alpha\right) \\ &= P_\mu\left(\Phi\left(\left\lvert\frac{\bar X - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert\right) > 1 - \frac{\alpha}{2}\right) \\ &= 1 - \Phi\left(\frac{\mu_0 - \mu}{\sigma_0/\sqrt{n}} + z_{1-(\alpha/2)}\right) + \Phi\left(\frac{\mu_0 - \mu}{\sigma_0/\sqrt{n}} - z_{1-(\alpha/2)}\right) \end{align*} porque \(\bar X \sim N(\mu, \sigma_0^2/n)\).

Vemos que especificar um valor para \(\alpha\) especifica um conjunto de valores dos dados \[ R = \left\{(x_1, \ldots, x_n) : \Phi\left(\left\lvert\frac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert\right) > 1 - \frac{\alpha}{2}\right\} \] tal que os resultados do teste são declarados estatisticamente significativos sempre que \((x_1, \ldots, x_n) \in R\). Usando o fato de que \(\Phi\) é injetora e crescente, podemos também escrever \(R\) como \begin{align*} R &= \left\{(x_1, \ldots, x_n) : \left\lvert\frac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert > \Phi^{-1}\left(1 - \frac{\alpha}{2}\right)\right\} \\ &= \left\{(x_1, \ldots, x_n) : \left\lvert\frac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert > z_{1-(\alpha/2)}\right\}. \end{align*} Além disso, a função poder é dada por \(\beta(\mu) = P_\mu(R)\) e \(\beta(\mu_0) = P_{\mu_0}(R) = \alpha\).

8.2.2 Erros Tipo I e Tipo II

Adotamos agora um ponto de vista diferente. Vamos procurar testes que sejam ótimos para testar a hipótese nula \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\). Primeiro, vamos supor que, tendo observado os dados \(s\), decidiremos aceitar ou rejeitar \(H_0\). Se rejeitarmos \(H_0\), isso equivale a aceitar a alternativa \(H_a : \psi(\theta) \ne \psi_0\). Nossa medida de desempenho para avaliar procedimentos de teste será então a probabilidade de o procedimento de teste cometer um erro.

Há dois tipos de erro. Podemos cometer um erro tipo I47 — rejeitar \(H_0\) quando ela é verdadeira — ou cometer um erro tipo II48 — aceitar \(H_0\) quando \(H_0\) é falsa. Note que, se rejeitarmos \(H_0\), isso implica que estamos aceitando a hipótese alternativa \(H_a : \psi(\theta) \ne \psi_0\).

Acontece que, exceto em circunstâncias muito artificiais, não há procedimentos de teste que minimizem simultaneamente as probabilidades de cometer os dois tipos de erro. Por isso, vamos impor uma cota superior49 \(\alpha\), chamada de valor crítico, à probabilidade de cometer um erro tipo I. Procuramos então, entre os testes cuja probabilidade de cometer um erro tipo I é menor ou igual a \(\alpha\), um procedimento de teste que minimize a probabilidade de cometer um erro tipo II.

Às vezes, os problemas de teste de hipóteses50 para parâmetros reais são classificados como unilaterais ou bilaterais. Por exemplo, se \(\theta\) é real, então \(H_0 : \theta = \theta_0\) versus \(H_a : \theta \ne \theta_0\) é um problema de teste bilateral51, enquanto \(H_0 : \theta \le \theta_0\) versus \(H_a : \theta > \theta_0\) ou \(H_0 : \theta \ge \theta_0\) versus \(H_a : \theta < \theta_0\) são exemplos de problemas unilaterais. Note, porém, que, se definirmos \[ \psi(\theta) = I_{(\theta_0, \infty)}(\theta), \] então \(H_0 : \theta \le \theta_0\) versus \(H_a : \theta > \theta_0\) é equivalente ao problema \(H_0 : \psi(\theta) = 0\) versus \(H_a : \psi(\theta) \ne 0\). Da mesma forma, se definirmos \[ \psi(\theta) = I_{(-\infty, \theta_0)}(\theta), \] então \(H_0 : \theta \ge \theta_0\) versus \(H_a : \theta < \theta_0\) é equivalente ao problema \(H_0 : \psi(\theta) = 0\) versus \(H_a : \psi(\theta) \ne 0\). Assim, a formulação que adotamos para problemas de teste sobre um \(\psi\) geral inclui os problemas unilaterais como casos particulares.

8.2.3 Regiões de Rejeição e Funções de Teste

Uma maneira de especificar um procedimento de teste é escolher um subconjunto \(R \subset S\) antes de observarmos \(s\). Então rejeitamos \(H_0\) sempre que \(s \in R\) e aceitamos \(H_0\) sempre que \(s \notin R\). O conjunto \(R\) é chamado de região de rejeição52. Impor uma cota superior à probabilidade de rejeitar \(H_0\) quando ela é verdadeira leva ao seguinte.

Definição 8.2.1

Uma região de rejeição \(R\) que satisfaz \begin{equation} P_\theta(R) \le \alpha \tag{8.2.1} \end{equation} sempre que \(\psi(\theta) = \psi_0\) é chamada de região de rejeição de tamanho \(\alpha\) para \(H_0\).

Assim, (8.2.1) expressa a cota para a probabilidade de cometer um erro tipo I.

Entre todas as regiões de rejeição \(R\) de tamanho \(\alpha\), queremos encontrar aquela (se existir) que minimiza a probabilidade de cometer um erro tipo II. Isso equivale a encontrar a região de rejeição \(R\) de tamanho \(\alpha\) que maximiza a probabilidade de rejeitar a hipótese nula quando ela é falsa. Essa probabilidade pode ser expressa em termos da função poder de \(R\) e é dada por \(\beta(\theta) = P_\theta(R)\) sempre que \(\psi(\theta) \ne \psi_0\).

Para especificar por completo a abordagem de otimalidade para testes de hipóteses, precisamos de mais um ingrediente. Observe que nossa busca por uma região de rejeição \(R\) ótima de tamanho \(\alpha\) equivale a encontrar a função indicadora53 \(I_R\) que satisfaz \(\beta(\theta)\) \({}= E_\theta(I_R)\) \({}= P_\theta(R) \le \alpha\), quando \(\psi(\theta) = \psi_0\), e maximiza \(\beta(\theta) = E_\theta(I_R) = P_\theta(R)\), quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\). Acontece que, em vários problemas, não existe tal região de rejeição.

Por outro lado, muitas vezes há solução para o problema mais geral de encontrar uma função \(\varphi : S \to [0, 1]\) que satisfaça \begin{equation} \beta(\theta) = E_\theta(\varphi) \le \alpha, \tag{8.2.2} \end{equation} quando \(\psi(\theta) = \psi_0\), e maximize \[ \beta(\theta) = E_\theta(\varphi), \] quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\). Temos a seguinte terminologia.

Definição 8.2.2

Chamamos \(\varphi : S \to [0, 1]\) de função de teste54 e \(\beta(\theta) = E_\theta(\varphi)\) de função poder associada à função de teste \(\varphi\). Se \(\varphi\) satisfaz (8.2.2) quando \(\psi(\theta) = \psi_0\), ela é chamada de função de teste de tamanho \(\alpha\). Se \(\varphi\) satisfaz \(E_\theta(\varphi) = \alpha\) quando \(\psi(\theta) = \psi_0\), ela é chamada de função de teste de tamanho exato \(\alpha\). Uma função de teste \(\varphi\) de tamanho \(\alpha\) que maximiza \(\beta(\theta) = E_\theta(\varphi)\) quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\) é chamada de função de teste uniformemente mais poderosa (UMP) de tamanho \(\alpha\).

Note que \(\varphi = I_R\) é uma função de teste com função poder dada por \(\beta(\theta) = E_\theta(I_R) = P_\theta(R)\).

Para dados observados \(s\), interpretamos \(\varphi(s) = 0\) como aceitar \(H_0\) e \(\varphi(s) = 1\) como rejeitar \(H_0\). Em geral, interpretamos \(\varphi(s)\) como a probabilidade condicional de rejeitarmos \(H_0\) dados os dados \(s\). Na prática, isso significa que, depois de observar \(s\), geramos uma variável aleatória Bernoulli\((\varphi(s))\). Se obtivermos 1, rejeitamos \(H_0\); se obtivermos 0, aceitamos \(H_0\). Portanto, pelo teorema da esperança total, \(E_\theta(\varphi)\) é a probabilidade incondicional55 de rejeitar \(H_0\). A aleatorização que ocorre quando \(0 < \varphi(s) < 1\) pode parecer um tanto contraintuitiva, mas ela nos é imposta pela busca por um teste UMP56 de tamanho \(\alpha\), já que, em certos problemas, podemos aumentar o poder fazendo isso.

8.2.4 O Teorema de Neyman–Pearson

Para um problema de teste especificado por uma hipótese nula \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\) e um valor crítico \(\alpha\), queremos encontrar uma função de teste \(\varphi\) UMP de tamanho \(\alpha\). Note que uma função de teste \(\varphi_0\) UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\) é caracterizada (denotando por \(\beta_\varphi\) a função poder de \(\varphi\)) por \[ \beta_{\varphi_0}(\theta) \le \alpha, \] quando \(\psi(\theta) = \psi_0\), e por \[ \beta_{\varphi_0}(\theta) \ge \beta_\varphi(\theta), \] quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\), para qualquer outra função de teste \(\varphi\) de tamanho \(\alpha\).

Ainda assim, esse problema de otimização não tem solução em geral. Em certos problemas, porém, é possível encontrar uma solução ótima. O resultado a seguir dá um exemplo disso. Ele é fundamental para toda a teoria de testes de hipóteses ótimos.

Teorema 8.2.1 (Neyman–Pearson)

Suponha que \(\negrito{\Omega} = \{\theta_0, \theta_1\}\) e que queremos testar \(H_0 : \theta = \theta_0\). Então existe uma função de teste \(\varphi_0\) de tamanho exato \(\alpha\) da forma \begin{equation} \varphi_0(s) = \begin{cases} 1 & f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) > c_0 \\[1ex] \gamma & f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) = c_0 \\[1ex] 0 & f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) < c_0 \end{cases} \tag{8.2.3} \end{equation} para algum \(\gamma \in [0, 1]\) e \(c_0 \ge 0\). Esse teste é UMP de tamanho \(\alpha\).

Demonstração.

Veja a Seção 8.5 para a demonstração deste resultado.

O resultado a seguir pode ser estabelecido por uma extensão simples da demonstração do teorema de Neyman–Pearson.

Corolário 8.2.1

Se \(\varphi\) é um teste UMP de tamanho \(\alpha\), então \(\varphi(s) = \varphi_0(s)\) em toda parte, exceto possivelmente na fronteira \(B = \{s : f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s)\) \({}= c_0\}\). Além disso, \(\varphi\) tem tamanho exato \(\alpha\), a menos que o poder de um teste UMP de tamanho \(\alpha\) seja igual a 1.

Demonstração.

Veja o Desafio 8.2.22.57

Note a natureza intuitiva do teste dado pelo teorema de Neyman–Pearson, pois (8.2.3) indica que rejeitamos categoricamente \(H_0\) como verdadeira quando a razão de verossimilhança58 de \(\theta_1\) contra \(\theta_0\) é maior que a constante \(c_0\), e aceitamos \(H_0\) quando ela é menor. Quando a razão de verossimilhança é igual a \(c_0\), decidimos ao acaso rejeitar \(H_0\) com probabilidade \(\gamma\). Além disso, o Corolário 8.2.1 diz que um teste UMP de tamanho \(\alpha\) é essencialmente único, embora possa haver diferentes estratégias de aleatorização na fronteira.

A demonstração do teorema de Neyman–Pearson revela que \(c_0\) é o menor número real tal que \begin{equation} P_{\theta_0}\left(\frac{f_{\theta_1}(s)}{f_{\theta_0}(s)} > c_0\right) \le \alpha \tag{8.2.4} \end{equation} e \begin{equation} \gamma = \begin{cases} \dfrac{\alpha - P_{\theta_0}\left(\frac{f_{\theta_1}(s)}{f_{\theta_0}(s)} > c_0\right)}{P_{\theta_0}\left(\frac{f_{\theta_1}(s)}{f_{\theta_0}(s)} = c_0\right)} & P_{\theta_0}\left(\dfrac{f_{\theta_1}(s)}{f_{\theta_0}(s)} = c_0\right) \ne 0 \\[3ex] 0 & \text{caso contrário.} \end{cases} \tag{8.2.5} \end{equation} Usamos (8.2.4) e (8.2.5) para calcular \(c_0\) e \(\gamma\) e, assim, determinar o teste UMP de tamanho \(\alpha\) num problema particular.

Note que o teste é não aleatorizado sempre que \(P_{\theta_0}(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) > c_0)\) \({}= \alpha\), pois então \(\gamma = 0\), isto é, aceitamos ou rejeitamos \(H_0\) categoricamente depois de ver os dados. Isso sempre ocorre quando a distribuição de \(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s)\) é contínua quando \(s \sim P_{\theta_0}\). Curiosamente, pode acontecer de a distribuição da razão não ser contínua mesmo quando a distribuição de \(s\) é contínua (ver Problema 8.2.17).

Antes de considerar algumas aplicações do teorema de Neyman–Pearson, estabelecemos o análogo do teorema de Rao–Blackwell para problemas de teste de hipóteses. Dado o valor da estatística suficiente \(U(s) = u\), denotamos por \(P(\cdot \mid U = u)\) a medida de probabilidade condicional da resposta \(s\) (pelo Teorema 8.1.2, essa medida de probabilidade não depende de \(\theta\)). Para a função de teste \(\varphi\), tomamos \(\varphi_U(s)\) igual à esperança condicional de \(\varphi\) dado o valor de \(U(s)\), isto é, \[ \varphi_U(s) = E_{P(\cdot \mid U = U(s))}(\varphi). \]

Teorema 8.2.2

Suponha que \(U\) é uma estatística suficiente e que \(\varphi\) é uma função de teste de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\). Então \(\varphi_U\) é uma função de teste de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\) que depende dos dados apenas por meio do valor de \(U\). Além disso, \(\varphi\) e \(\varphi_U\) têm a mesma função poder.

Demonstração.

É claro que \(\varphi_U(s_1) = \varphi_U(s_2)\) sempre que \(U(s_1) = U(s_2)\) e, assim, \(\varphi_U\) depende dos dados apenas por meio do valor de \(U\). Seja agora \(P_{\theta, U}\) a medida de probabilidade marginal de \(U\) induzida por \(P_\theta\). Então, pelo teorema da esperança total, temos \(E_\theta(\varphi)\) \({}= E_{P_{\theta, U}}(E_{P(\cdot \mid U = u)}(\varphi))\) \({}= E_{P_{\theta, U}}(\varphi_U)\) \({}= E_\theta(\varphi_U)\). Ora, \(E_\theta(\varphi) \le \alpha\) quando \(\psi(\theta) = \psi_0\), o que implica que \(E_\theta(\varphi_U) \le \alpha\) quando \(\psi(\theta) = \psi_0\), e \(\beta(\theta)\) \({}= E_\theta(\varphi)\) \({}= E_\theta(\varphi_U)\) quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\).

Esse resultado nos permite restringir a busca por um teste UMP de tamanho \(\alpha\) às funções de teste que dependem dos dados apenas por meio do valor de uma estatística suficiente.

Consideramos agora algumas aplicações do teorema de Neyman–Pearson. O exemplo a seguir mostra que esse resultado pode levar a soluções de problemas muito mais gerais do que o caso simples tratado.

Exemplo 8.2.2 Testes de Hipóteses Ótimos no Modelo Normal de Locação

Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu \in \negrito{\Omega} = \{\mu_0, \mu_1\}\) e \(\sigma_0^2 > 0\) é conhecido, e queremos testar \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus \(H_a : \mu = \mu_1\). A função de verossimilhança é dada por \[ L(\mu \mid x_1, \ldots, x_n) = \exp\left(-\frac{n}{2\sigma_0^2}(\bar{x} - \mu)^2\right), \] e \(\bar{x}\) é uma estatística suficiente para esse modelo restrito.

Pelo Teorema 8.2.2, podemos restringir nossa atenção às funções de teste que dependem dos dados por meio de \(\bar{x}\). Ora, \(\bar X \sim N(\mu, \sigma_0^2/n)\), de modo que \begin{align*} \frac{f_{\mu_1}(\bar{x})}{f_{\mu_0}(\bar{x})} &= \frac{\exp\left(-\frac{n}{2\sigma_0^2}(\bar{x} - \mu_1)^2\right)}{\exp\left(-\frac{n}{2\sigma_0^2}(\bar{x} - \mu_0)^2\right)} \\ &= \exp\left(-\frac{n}{2\sigma_0^2}\left(\bar{x}^2 - 2\bar{x}\mu_1 + \mu_1^2 - \bar{x}^2 + 2\bar{x}\mu_0 - \mu_0^2\right)\right) \\ &= \exp\left(\frac{n}{\sigma_0^2}(\mu_1 - \mu_0)\bar{x}\right)\exp\left(-\frac{n}{2\sigma_0^2}\left(\mu_1^2 - \mu_0^2\right)\right). \end{align*} Portanto, \begin{align*} &P_{\mu_0}\left(\frac{f_{\mu_1}(\bar X)}{f_{\mu_0}(\bar X)} > c_0\right) \\ &= P_{\mu_0}\left(\exp\left(\frac{n}{\sigma_0^2}(\mu_1 - \mu_0)\bar X\right)\exp\left(-\frac{n}{2\sigma_0^2}\left(\mu_1^2 - \mu_0^2\right)\right) > c_0\right) \\ &= P_{\mu_0}\left(\exp\left(\frac{n}{\sigma_0^2}(\mu_1 - \mu_0)\bar X\right) > c_0\exp\left(\frac{n}{2\sigma_0^2}\left(\mu_1^2 - \mu_0^2\right)\right)\right) \\ &= P_{\mu_0}\left((\mu_1 - \mu_0)\bar X > \frac{\sigma_0^2}{n}\ln\left\{c_0\exp\left(\frac{n}{2\sigma_0^2}\left(\mu_1^2 - \mu_0^2\right)\right)\right\}\right) \\ &= \begin{cases} P_{\mu_0}\left(\dfrac{\bar X - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}} > c_0'\right) & \mu_1 > \mu_0 \\[3ex] P_{\mu_0}\left(\dfrac{\bar X - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}} < c_0'\right) & \mu_1 < \mu_0, \end{cases} \end{align*} em que \[ c_0' = \frac{\sqrt{n}}{\sigma_0}\left\{\frac{\sigma_0^2}{n(\mu_1 - \mu_0)}\ln\left\{c_0\exp\left(\frac{n}{2\sigma_0^2}\left(\mu_1^2 - \mu_0^2\right)\right)\right\} - \mu_0\right\}. \]

Usando (8.2.4), quando \(\mu_1 > \mu_0\), escolhemos \(c_0\) de modo que \(c_0' = z_{1-\alpha}\); quando \(\mu_1 < \mu_0\), escolhemos \(c_0\) de modo que \(c_0' = z_\alpha\). Essas escolhas implicam que \[ P_{\mu_0}\left(\frac{f_{\mu_1}(\bar X)}{f_{\mu_0}(\bar X)} > c_0\right) = \alpha \] e, por (8.2.5), \(\gamma = 0\).

Assim, o teste UMP de tamanho \(\alpha\) é não aleatorizado. Quando \(\mu_1 > \mu_0\), o teste é dado por \begin{equation} \varphi_0(\bar{x}) = \begin{cases} 1 & \bar{x} \ge \mu_0 + \frac{\sigma_0}{\sqrt{n}} z_{1-\alpha} \\[1ex] 0 & \bar{x} < \mu_0 + \frac{\sigma_0}{\sqrt{n}} z_{1-\alpha}. \end{cases} \tag{8.2.6} \end{equation} Quando \(\mu_1 < \mu_0\), o teste é dado por \begin{equation} \varphi_0^*(\bar{x}) = \begin{cases} 1 & \bar{x} \le \mu_0 + \frac{\sigma_0}{\sqrt{n}} z_\alpha \\[1ex] 0 & \bar{x} > \mu_0 + \frac{\sigma_0}{\sqrt{n}} z_\alpha. \end{cases} \tag{8.2.7} \end{equation}

Note que a função de teste em (8.2.6) não depende de \(\mu_1\) de modo algum. A consequência é que essa função de teste é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus \(H_a : \mu = \mu_1\) para qualquer \(\mu_1 > \mu_0\). Isso implica que \(\varphi_0\) é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus a alternativa \(H_a : \mu > \mu_0\).

Além disso, temos \begin{align*} \beta_{\varphi_0}(\mu) &= P_\mu\left(\bar X \ge \mu_0 + \frac{\sigma_0}{\sqrt{n}} z_{1-\alpha}\right) = P_\mu\left(\frac{\bar X - \mu}{\sigma_0/\sqrt{n}} \ge \frac{\mu_0 - \mu}{\sigma_0/\sqrt{n}} + z_{1-\alpha}\right) \\ &= 1 - \Phi\left(\frac{\mu_0 - \mu}{\sigma_0/\sqrt{n}} + z_{1-\alpha}\right). \end{align*} Note que essa função é crescente em \(\mu\), o que implica que \(\varphi_0\) é uma função de teste de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu \le \mu_0\) versus \(H_a : \mu > \mu_0\). Observe que, se \(\varphi\) é uma função de teste de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu \le \mu_0\) versus \(H_a : \mu > \mu_0\), então ela também é um teste de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus \(H_a : \mu > \mu_0\). Disso concluímos que \(\varphi_0\) é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu \le \mu_0\) versus \(H_a : \mu > \mu_0\). Da mesma forma (ver Problema 8.2.12), pode-se mostrar que \(\varphi_0^*\) em (8.2.7) é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu \ge \mu_0\) versus \(H_a : \mu < \mu_0\).

Podemos nos perguntar se existe um teste UMP de tamanho \(\alpha\) para o problema bilateral \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus \(H_a : \mu \ne \mu_0\). Suponha que \(\varphi\) é um teste UMP de tamanho \(\alpha\) para esse problema. Então \(\varphi\) também tem tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus \(H_a : \mu = \mu_1\) quando \(\mu_1 > \mu_0\). Usando o Corolário 8.2.1 e os desenvolvimentos anteriores (que também mostram que não existe um teste da forma (8.2.3) com poder igual a 1 para esse problema), isso implica que \(\varphi = \varphi_0\) (a fronteira \(B\) tem probabilidade 0 aqui). Mas \(\varphi\) também é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus \(H_a : \mu = \mu_1\) quando \(\mu_1 < \mu_0\); assim, pelo mesmo raciocínio, \(\varphi = \varphi_0^*\). Mas claramente \(\varphi_0 \ne \varphi_0^*\), de modo que não existe teste UMP de tamanho \(\alpha\) para o problema bilateral.

Intuitivamente, esperaríamos que o teste de tamanho \(\alpha\) dado por \begin{equation} \varphi(\bar{x}) = \begin{cases} 1 & \left\lvert\dfrac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert \ge z_{1-\alpha/2} \\[3ex] 0 & \left\lvert\dfrac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma_0/\sqrt{n}}\right\rvert < z_{1-\alpha/2} \end{cases} \tag{8.2.8} \end{equation} fosse um bom teste a usar, mas ele não é UMP de tamanho \(\alpha\). Acontece, porém, que o teste em (8.2.8) é UMP de tamanho \(\alpha\) entre todos os testes que satisfazem \(\beta_\varphi(\mu_0) \le \alpha\) e \(\beta_\varphi(\mu) \ge \alpha\) quando \(\mu \ne \mu_0\).

O Exemplo 8.2.2 ilustrou um problema de teste de hipóteses para o qual não existe teste UMP de tamanho \(\alpha\). Às vezes, porém, exigindo que o teste tenha outra propriedade muito natural, podemos obter um teste ótimo.

Definição 8.2.3

Um teste \(\varphi\) que satisfaz \(\beta_\varphi(\theta) \le \alpha\), quando \(\psi(\theta) = \psi_0\), e \(\beta_\varphi(\theta) \ge \alpha\), quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\), é chamado de teste não viesado de tamanho \(\alpha\) para o problema de teste de hipóteses \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\).

Assim, (8.2.8) é um teste UMP não viesado de tamanho \(\alpha\). Um teste não viesado tem a propriedade de que a probabilidade de rejeitar a hipótese nula, quando ela é falsa, é sempre maior que a probabilidade de rejeitá-la quando ela é verdadeira. Essa parece uma propriedade muito razoável. Em particular, pode-se provar que todo teste UMP de tamanho \(\alpha\) é sempre um teste não viesado de tamanho \(\alpha\) (Problema 8.2.14). Não aprofundamos a teoria dos testes não viesados neste texto.

Consideramos agora um exemplo que mostra que não podemos dispensar o uso de testes aleatorizados.

Exemplo 8.2.3 Testes de Hipóteses Ótimos no Modelo Bernoulli\((\theta)\)

Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Bernoulli\((\theta)\), em que \(\theta \in \negrito{\Omega}\) \({}= \{\theta_0, \theta_1\}\), e queremos testar \(H_0 : \theta = \theta_0\) versus \(H_a : \theta = \theta_1\), em que \(\theta_1 > \theta_0\). Então \(n\bar{x}\) é uma estatística suficiente minimal e, pelo Teorema 8.2.2, podemos restringir nossa atenção às funções de teste que dependem dos dados apenas por meio de \(n\bar{x}\).

Ora, \(n\bar X \sim \text{Binomial}(n, \theta)\), de modo que \[ \frac{f_{\theta_1}(n\bar{x})}{f_{\theta_0}(n\bar{x})} = \frac{\theta_1^{n\bar{x}}(1 - \theta_1)^{n - n\bar{x}}}{\theta_0^{n\bar{x}}(1 - \theta_0)^{n - n\bar{x}}} = \left(\frac{\theta_1}{\theta_0}\right)^{n\bar{x}}\left(\frac{1 - \theta_1}{1 - \theta_0}\right)^{n - n\bar{x}}. \] Portanto, \begin{align*} &P_{\theta_0}\left(\frac{f_{\theta_1}(n\bar X)}{f_{\theta_0}(n\bar X)} > c_0\right) \\ &= P_{\theta_0}\left(\left(\frac{\theta_1}{\theta_0}\right)^{n\bar X}\left(\frac{1 - \theta_1}{1 - \theta_0}\right)^{n - n\bar X} > c_0\right) \\ &= P_{\theta_0}\left(\left(\frac{\theta_1}{1 - \theta_1}\,\frac{1 - \theta_0}{\theta_0}\right)^{n\bar X} > c_0\left(\frac{1 - \theta_1}{1 - \theta_0}\right)^{-n}\right) \\ &= P_{\theta_0}\left(n\bar X\left[\ln\left(\frac{\theta_1}{1 - \theta_1}\,\frac{1 - \theta_0}{\theta_0}\right)\right] > \ln c_0\left(\frac{1 - \theta_1}{1 - \theta_0}\right)^{-n}\right) \\ &= P_{\theta_0}\left(n\bar X > \frac{\ln c_0\left(\frac{1 - \theta_1}{1 - \theta_0}\right)^{-n}}{\ln\left(\frac{\theta_1}{1 - \theta_1}\,\frac{1 - \theta_0}{\theta_0}\right)}\right) = P_{\theta_0}(n\bar X > c_0') \end{align*} porque \[ \ln\left(\frac{\theta_1}{1 - \theta_1}\,\frac{1 - \theta_0}{\theta_0}\right) > 0, \] já que \(\theta/(1 - \theta)\) é crescente em \(\theta\), o que implica \(\theta_1/(1 - \theta_1) > \theta_0/(1 - \theta_0)\).

Agora, usando (8.2.4), escolhemos \(c_0\) de modo que \(c_0'\) seja um inteiro que satisfaça \[ P_{\theta_0}(n\bar X > c_0') \le \alpha \quad\text{e}\quad P_{\theta_0}(n\bar X > c_0' - 1) > \alpha. \] Como \(n\bar X \sim \text{Binomial}(n, \theta_0)\) é uma distribuição discreta, vemos que, em geral, não conseguiremos obter \(P_{\theta_0}(n\bar X > c_0') = \alpha\) exatamente. Assim, usando (8.2.5), \[ \gamma = \frac{\alpha - P_{\theta_0}(n\bar X > c_0')}{P_{\theta_0}(n\bar X = c_0')} \] não será igual a 0. Então \[ \varphi_0(n\bar{x}) = \begin{cases} 1 & n\bar{x} > c_0' \\ \gamma & n\bar{x} = c_0' \\ 0 & n\bar{x} < c_0' \end{cases} \] é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \theta = \theta_0\) versus \(H_a : \theta = \theta_1\). Note que podemos usar um software estatístico (ou a Tabela D.6) da distribuição binomial para obter \(c_0'\).

Por exemplo, suponha que \(n = 6\) e \(\theta_0 = 0{,}25\). A tabela a seguir dá os valores da função de distribuição Binomial\((6; 0{,}25)\) com três casas decimais.

\(x\)\(0\)\(1\)\(2\)\(3\)\(4\)\(5\)\(6\)
\(F(x)\)\(0{,}178\)\(0{,}534\)\(0{,}831\)\(0{,}962\)\(0{,}995\)\(1{,}000\)\(1{,}000\)

Portanto, se \(\alpha = 0{,}05\), temos \(c_0' = 3\) porque \(P_{0{,}25}(n\bar X > 3)\) \({}= 1 - 0{,}962\) \({}= 0{,}038\) e \(P_{0{,}25}(n\bar X > 2)\) \({}= 1 - 0{,}831\) \({}= 0{,}169\). Isso implica que59 \[ \gamma = \frac{0{,}05 - (1 - 0{,}962)}{0{,}962} = 0{,}012. \] Assim, com esse teste, rejeitamos \(H_0 : \theta = \theta_0\) categoricamente se o número de sucessos for maior que 3, aceitamos \(H_0 : \theta = \theta_0\) categoricamente quando o número de sucessos for menor que 3 e, quando o número de 1s for igual a 3, rejeitamos \(H_0 : \theta = \theta_0\) ao acaso com probabilidade 0,012 (por exemplo, gere \(U \sim \text{Uniforme}[0, 1]\) e rejeite sempre que \(U \le 0{,}012\)).

Note que o teste \(\varphi_0\) não envolve \(\theta_1\), de modo que, de fato, ele é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \theta = \theta_0\) versus \(H_a : \theta > \theta_0\). Além disso, usando o Problema 8.2.18, temos \begin{align*} P_\theta(n\bar X > c_0') &= \sum_{k = c_0' + 1}^{n} \binom{n}{k}\theta^k(1 - \theta)^{n-k} \\ &= 1 - \frac{\Gamma(n + 1)}{\Gamma(c_0' + 1)\,\Gamma(n - c_0')}\int_\theta^1 u^{c_0'}(1 - u)^{n - c_0' - 1}\,du. \end{align*} Como \[ \int_\theta^1 u^{c_0'}(1 - u)^{n - c_0' - 1}\,du \] é decrescente em \(\theta\), devemos ter que \(P_\theta(n\bar X > c_0')\) é crescente em \(\theta\). Argumentando como no Exemplo 8.2.2, concluímos que \(\varphi_0\) é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \theta \le \theta_0\) versus \(H_a : \theta > \theta_0\).

Da mesma forma, obtemos um teste UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \theta \le \theta_0\) versus \(H_a : \theta > \theta_0\).60 Como no Exemplo 8.2.2, não existe teste UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \theta = \theta_0\) versus \(H_a : \theta \ne \theta_0\), mas existe um teste UMP não viesado de tamanho \(\alpha\) para esse problema.

8.2.5 Testes da Razão de Verossimilhança (Avançado)

Nos exemplos considerados até aqui, o teorema de Neyman–Pearson levou a soluções de problemas em que \(H_0\) ou \(H_a\) não são apenas valores únicos do parâmetro, embora o teorema tenha sido enunciado só para o caso de valor único. Observamos também, porém, que isso não vale em geral (por exemplo, os problemas bilaterais discutidos nos Exemplos 8.2.2 e 8.2.3).

O método dos testes da razão de verossimilhança generalizada para \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\) foi desenvolvido para tratar o caso geral. Ele é motivado pelo teorema de Neyman–Pearson, pois observe que, em (8.2.3), \[ \frac{f_{\theta_1}(s)}{f_{\theta_0}(s)} = \frac{L(\theta_1 \mid s)}{L(\theta_0 \mid s)}. \] Portanto, (8.2.3) pode ser visto como baseado na razão entre a verossimilhança em \(\theta_1\) e a verossimilhança em \(\theta_0\), e rejeitamos \(H_0 : \theta = \theta_0\) quando a verossimilhança dá muito mais suporte a \(\theta_1\) do que a \(\theta_0\). A quantidade de suporte adicional exigida para a rejeição é determinada por \(c_0\). Quanto maior \(c_0\), maior a verossimilhança \(L(\theta_1 \mid s)\) precisa ser em relação a \(L(\theta_0 \mid s)\) para que rejeitemos \(H_0 : \theta = \theta_0\).

Denote o EMV global de \(\theta\) por \(\hat\theta(s)\) e o EMV quando \(\theta \in H_0\) por \(\hat\theta_{H_0}(s)\). Assim, temos \[ L(\theta \mid s) \le L(\hat\theta_{H_0}(s) \mid s) \] para todo \(\theta\) tal que \(\psi(\theta) = \psi_0\). O teste da razão de verossimilhança generalizada rejeita então \(H_0\) quando \begin{equation} \frac{L(\hat\theta(s) \mid s)}{L(\hat\theta_{H_0}(s) \mid s)} \tag{8.2.9} \end{equation} é grande, pois isso indica evidência contra a veracidade de \(H_0\).

Como determinamos quando (8.2.9) é grande o bastante para rejeitar? Denotando por \(s_0\) os dados observados, fazemos isso calculando os valores-p \begin{equation} P_\theta\left(\frac{L(\hat\theta(s) \mid s)}{L(\hat\theta_{H_0}(s) \mid s)} > \frac{L(\hat\theta(s_0) \mid s_0)}{L(\hat\theta_{H_0}(s_0) \mid s_0)}\right) \tag{8.2.10} \end{equation} quando \(\theta \in H_0\). Valores pequenos de (8.2.10) são evidência contra \(H_0\). É claro que, quando \(\psi(\theta) = \psi_0\) para mais de um valor de \(\theta\), não fica claro qual valor de (8.2.10) usar. Pode-se mostrar, porém, que, sob condições como as discutidas na Seção 6.5, se \(s\) corresponde a uma amostra de \(n\) valores de uma distribuição, então \[ 2\ln\frac{L(\hat\theta(s) \mid s)}{L(\hat\theta_{H_0}(s) \mid s)} \xrightarrow{D} \chi^2(\dim\negrito{\Omega} - \dim H_0) \] quando \(n \to \infty\), sempre que o verdadeiro valor de \(\theta\) está em \(H_0\). Aqui, \(\dim\negrito{\Omega}\) e \(\dim H_0\) são as dimensões desses conjuntos. Isso nos leva a um teste que rejeita \(H_0\) sempre que \begin{equation} 2\ln\frac{L(\hat\theta(s) \mid s)}{L(\hat\theta_{H_0}(s) \mid s)} \tag{8.2.11} \end{equation} é maior que um determinado quantil da distribuição \(\chi^2(\dim\negrito{\Omega} - \dim H_0)\).

Por exemplo, suponha que, num modelo normal de locação e escala61, estamos testando \(H_0 : \mu = \mu_0\). Então \(\negrito{\Omega} = R^1 \times [0, \infty)\), \(H_0 = \{\mu_0\} \times [0, \infty)\), \(\dim\negrito{\Omega} = 2\), \(\dim H_0 = 1\) e, para um teste de tamanho 0,05, rejeitamos sempre que (8.2.11) for maior que \(\chi^2_{0{,}95}(1)\). Note que, a rigor, os testes da razão de verossimilhança não são derivados de considerações de otimalidade. Não discutiremos mais os testes da razão de verossimilhança neste texto.

Resumo da Seção 8.2

Exercícios

8.2.1 Suponha que um modelo estatístico seja dado pelas duas distribuições da tabela a seguir.

\(s = 1\)\(s = 2\)\(s = 3\)\(s = 4\)
\(f_a(s)\)\(1/3\)\(1/6\)\(1/12\)\(5/12\)
\(f_b(s)\)\(1/2\)\(1/4\)\(1/6\)\(1/12\)

Determine o teste UMP de tamanho 0,10 para testar \(H_0 : \theta = a\) versus \(H_a : \theta = b\). Qual é o poder desse teste? Repita com o tamanho igual a 0,05.

8.2.2 Suponha que, para o problema de teste de hipóteses do Exercício 8.2.1, um estatístico decida gerar \(U \sim \text{Uniforme}[0, 1]\) e rejeitar \(H_0\) sempre que \(U \le 0{,}05\). Mostre que esse teste tem tamanho 0,05. Explique por que essa não é uma boa escolha de teste e por que o teste obtido no Exercício 8.2.1 é melhor. Dê evidência numérica disso.

8.2.3 Suponha que um pesquisador sabe que um processo industrial produz uma variável resposta62 que segue uma distribuição \(N(1, 2)\). Foram feitas algumas mudanças no processo industrial, e o pesquisador acredita que elas possam ter mudado a média da resposta (não a variância), aumentando seu valor. O pesquisador quer que a probabilidade de ocorrer um erro tipo I seja menor que 1%. Determine um procedimento de teste adequado para esse problema com base numa amostra de tamanho 10.

8.2.4 Suponha que você tenha uma amostra de tamanho 20 de uma distribuição \(N(\mu, 1)\). Você constrói um intervalo de confiança 0,975 para \(\mu\) e o usa para testar \(H_0 : \mu = 0\), rejeitando \(H_0\) sempre que 0 não está no intervalo de confiança. (a) Qual é o tamanho desse teste?(b) Determine a função poder desse teste.

8.2.5 Suponha que você tenha uma amostra de tamanho \(n = 1\) de uma distribuição Uniforme\([0, \theta]\), em que \(\theta > 0\) é desconhecido. Você testa \(H_0 : \theta \le 1\) rejeitando \(H_0\) sempre que o valor amostrado for maior que 1. (a) Qual é o tamanho desse teste?(b) Determine a função poder desse teste.

8.2.6 Suponha que você esteja testando uma hipótese nula \(H_0 : \theta = 0\), em que \(\theta \in R^1\). Você usa um procedimento de teste de tamanho 0,05 e aceita \(H_0\). Você acha que tem uma amostra razoavelmente grande, mas, ao calcular o poder em \(\pm 0{,}2\), obtém o valor 0,10, em que 0,2 representa a menor diferença em relação a 0 que tem importância prática. Você acredita que faz sentido concluir que a hipótese nula é verdadeira? Justifique sua conclusão.

8.2.7 Suponha que você queira testar a hipótese nula \(H_0 : \mu = 0\) com base numa amostra de tamanho \(n\) de uma distribuição \(N(\mu, 1)\), em que \(\mu \in \{0, 2\}\). Quão grande \(n\) precisa ser para que o poder em \(\mu = 2\) do teste ótimo de tamanho 0,05 seja igual a 0,99?

8.2.8 Suponha que temos à disposição dois procedimentos de teste diferentes num problema e que eles têm a mesma função poder. Explique por que, do ponto de vista da teoria de testes de hipóteses ótimos, não deveria nos importar qual teste é usado.

8.2.9 Suponha que você tenha um teste \(\varphi\) UMP de tamanho \(\alpha\) para testar a hipótese \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\), em que \(\psi\) é real. Explique como o gráfico da função poder de outro teste de tamanho \(\alpha\) que não seja UMP difere do gráfico da função poder de \(\varphi\).

Exercícios computacionais

8.2.10 Suponha que você tenha uma moeda e queira testar a hipótese de que ela é honesta, isto é, quer testar \(H_0 : \theta = 1/2\), em que \(\theta\) é a probabilidade de obter cara num único lançamento. Você decide rejeitar \(H_0\) usando a região de rejeição \(R = \{0, 1, 7, 8\}\) com base em \(n = 10\) lançamentos. Tabele a função poder desse procedimento para \(\theta \in \{0, 1/8, 2/8, \ldots, 7/8, 1\}\).

8.2.11 No mesmo gráfico, trace as funções poder do teste \(z\) bilateral de \(H_0 : \mu = 0\) para amostras de tamanhos \(n = 1\), 4, 10, 20 e 100, com base em \(\alpha = 0{,}05\). (a) O que você observa nesses gráficos?(b) Explique como esses gráficos mostram que esse teste é não viesado.

Problemas

8.2.12 Prove que \(\varphi_0^*\) em (8.2.7) é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \mu \ge \mu_0\) versus \(H_a : \mu < \mu_0\).

8.2.13 Prove que a função de teste \(\varphi(s) = \alpha\) para todo \(s \in S\) é uma função de teste de tamanho exato \(\alpha\). Qual é a interpretação dessa função de teste?

8.2.14 Usando a função de teste do Problema 8.2.13, mostre que um teste UMP de tamanho \(\alpha\) é também um teste UMP não viesado de tamanho \(\alpha\).

8.2.15 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Gama\((\alpha_0, \beta)\), em que \(\alpha_0\) é conhecido e \(\beta > 0\) é desconhecido. Determine o teste UMP de tamanho \(\alpha\) para testar \(H_0 : \beta = \beta_0\) versus \(H_a : \beta = \beta_1\), em que \(\beta_1 > \beta_0\). Esse teste é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \beta \le \beta_0\) versus \(H_a : \beta > \beta_0\)?

8.2.16 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu_0, \sigma^2)\), em que \(\mu_0\) é conhecido e \(\sigma^2 > 0\) é desconhecido. Determine o teste UMP de tamanho \(\alpha\) para testar \(H_0 : \sigma^2 = \sigma_0^2\) versus \(H_a : \sigma^2 = \sigma_1^2\), em que \(\sigma_0^2 < \sigma_1^2\). Esse teste é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \sigma^2 \le \sigma_0^2\) versus \(H_a : \sigma^2 > \sigma_0^2\)?

8.2.17 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Uniforme\([0, \theta]\), em que \(\theta > 0\) é desconhecido. Determine o teste UMP de tamanho \(\alpha\) para testar \(H_0 : \theta = \theta_0\) versus \(H_a : \theta = \theta_1\), em que \(\theta_0 < \theta_1\). Essa função de teste é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \theta \le \theta_0\) versus \(H_a : \theta > \theta_0\)?

8.2.18 Suponha que \(F\) é a função de distribuição da distribuição Binomial\((n, \theta)\). Prove então que \[ F(x) = \frac{\Gamma(n + 1)}{\Gamma(x + 1)\Gamma(n - x)}\int_\theta^1 y^x(1 - y)^{n - x - 1}\,dy \] para \(x = 0, 1, \ldots, n - 1\). Isso estabelece uma relação entre a distribuição de probabilidade binomial e a função beta63. (Sugestão: integração por partes64.)

8.2.19 Suponha que \(F\) é a função de distribuição da distribuição Poisson\((\lambda)\). Prove então que \[ F(x) = \frac{1}{x!}\int_\lambda^\infty y^x e^{-y}\,dy \] para \(x = 0, 1, \ldots\). Isso estabelece uma relação entre a distribuição de probabilidade de Poisson e a função gama65. (Sugestão: integração por partes.)

8.2.20 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição Poisson\((\lambda)\), em que \(\lambda > 0\) é desconhecido. Determine o teste UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \lambda = \lambda_0\) versus \(H_a : \lambda = \lambda_1\), em que \(\lambda_0 < \lambda_1\). Essa função de teste é UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \lambda \le \lambda_0\) versus \(H_a : \lambda > \lambda_0\)? (Sugestão: você vai precisar do resultado do Problema 8.2.19.)

8.2.21 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma^2)\), em que \((\mu, \sigma^2) \in R^1 \times (0, \infty)\) é desconhecido. Obtenha a forma do teste da razão de verossimilhança de tamanho exato \(\alpha\) para testar \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus \(H_0 : \mu \ne \mu_0\).66

8.2.22 (Intervalos de confiança ótimos) Suponha que, para o modelo \(\{f_\theta : \theta \in \negrito{\Omega}\}\), temos uma função de teste \(\varphi_{\psi_0}\) UMP de tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\), para cada valor possível de \(\psi_0\). Suponha, além disso, que cada \(\varphi_{\psi_0}\) só assume valores em \(\{0, 1\}\), isto é, cada \(\varphi_{\psi_0}\) é uma função de teste não aleatorizada de tamanho \(\alpha\). (a) Prove que \[ C(s) = \{\psi_0 : \varphi_{\psi_0}(s) = 0\} \] satisfaz \[ P_\theta(\psi(\theta) \in C(s)) \ge 1 - \alpha \] para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Conclua que \(C(s)\) é um conjunto de confiança \(1 - \alpha\) para \(\psi(\theta)\).(b) Se \(C^*\) é um conjunto de confiança \(1 - \alpha\) para \(\psi(\theta)\), prove que a função de teste definida por \[ \varphi_{\psi_0}^*(s) = \begin{cases} 1 & \psi_0 \notin C(s) \\ 0 & \psi_0 \in C(s) \end{cases} \] tem tamanho \(\alpha\) para \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\).67(c) Suponha que, para cada valor \(\psi_0\), a função de teste \(\varphi_{\psi_0}\) é UMP de tamanho \(\alpha\) para testar \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\) versus \(H_0 : \psi(\theta) \ne \psi_0\).68 Prove então que \begin{equation} P_\theta(\psi(\theta^*) \in C(s)) \tag{8.2.12} \end{equation} é minimizada, quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\), entre todos os conjuntos de confiança \(1 - \alpha\) para \(\psi(\theta)\). A probabilidade (8.2.12) é a probabilidade de \(C\) conter o valor falso \(\psi(\theta^*)\), e uma região de confiança69 \(1 - \alpha\) que minimiza essa probabilidade quando \(\psi(\theta) \ne \psi_0\) é chamada de região de confiança \(1 - \alpha\) uniformemente mais acurada (UMA) para \(\psi(\theta)\).

Desafios

8.2.23 Prove o Corolário 8.2.1 no caso discreto.

8.3 Inferências Bayesianas Ótimas

Acrescentamos agora a medida de probabilidade a priori \(\Pi\) com densidade \(\pi\). Como veremos, isso completa a especificação de um problema de otimalidade, pois agora sempre há uma solução. As soluções de problemas de otimização bayesianos são conhecidas como regras de Bayes.

Na Seção 8.1, o problema de otimização irrestrito era encontrar o estimador \(T\) de \(\psi(\theta)\) que minimiza \(\mathrm{MSE}_\theta(T)\) \({}= E_\theta((T - \psi(\theta))^2)\), para cada \(\theta \in \negrito{\Omega}\). A versão bayesiana desse problema é minimizar \begin{equation} E_\Pi(\mathrm{MSE}_\theta(T)) = E_\Pi(E_\theta((T - \psi(\theta))^2)). \tag{8.3.1} \end{equation}

Pelo teorema da esperança total (Teorema 3.5.2), (8.3.1) é o valor esperado do erro quadrático \((T(s) - \psi(\theta))^2\) sob a distribuição conjunta70 de \((\theta, s)\) induzida pela distribuição condicional de \(s\) dado \(\theta\) (o modelo amostral71) e pela distribuição marginal72 de \(\theta\) (a distribuição a priori de \(\theta\)). De novo pelo teorema da esperança total, podemos escrever isso como \begin{equation} E_\Pi(\mathrm{MSE}_\theta(T)) = E_M(E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}((T - \psi(\theta))^2)), \tag{8.3.2} \end{equation} em que \(\Pi(\cdot \,|\, s)\) denota a medida de probabilidade a posteriori de \(\theta\), dados os dados \(s\) (a distribuição condicional de \(\theta\) dado \(s\)), e \(M\) denota a medida de probabilidade preditiva a priori73 de \(s\) (a distribuição marginal de \(s\)).

Temos o seguinte resultado.

Teorema 8.3.1

Quando (8.3.1) é finito, uma regra de Bayes é dada por \[ T(s) = E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}(\psi(\theta)), \] isto é, a esperança a posteriori de \(\psi(\theta)\).

Demonstração.

Primeiro, considere o erro quadrático esperado a posteriori \[ E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}\Bigl((T'(s) - \psi(\theta))^2\Bigr) \] de uma estimativa \(T'(s)\). Pelo Teorema 8.1.1, ele é minimizado tomando \(T'(s)\) igual a \(T(s) = E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}(\psi(\theta))\) (note que a quantidade “aleatória” aqui é \(\theta\)).

Agora suponha que \(T'\) é um estimador qualquer de \(\psi(\theta)\). Acabamos de mostrar que \[ 0 \le E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}\Bigl((T(s) - \psi(\theta))^2\Bigr) \le E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}\Bigl((T'(s) - \psi(\theta))^2\Bigr) \] e, portanto, \begin{align*} E_\Pi(\mathrm{MSE}_\theta(T)) &= E_M\Bigl(E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}((T(s) - \psi(\theta))^2)\Bigr) \\ &\le E_M\Bigl(E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}((T'(s) - \psi(\theta))^2)\Bigr) = E_\Pi(\mathrm{MSE}_\theta(T')). \end{align*} Portanto, \(T\) minimiza (8.3.1) e é uma regra de Bayes.

Vemos, então, que, sob condições brandas, o problema de estimação bayesiano ótimo sempre tem solução, e não há necessidade de nos restringirmos a estimadores não viesados etc.

Para o problema de teste de hipóteses \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\), queremos encontrar a função de teste \(\varphi\) que minimiza a probabilidade a priori de cometer um erro (tipo I ou tipo II). Uma tal \(\varphi\) é uma regra de Bayes. Temos o seguinte resultado.

Teorema 8.3.2

Uma regra de Bayes para o problema de teste de hipóteses \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\) é dada por \[ \varphi_0(s) = \begin{cases} 1 & \Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s) \le \Pi(\{\psi(\theta) \ne \psi_0\} \,|\, s) \\[4pt] 0 & \text{caso contrário.} \end{cases} \]

Demonstração.

Considere a função de teste \(\varphi\) e seja \(I_{\{\psi(\theta) = \psi_0\}}(\theta)\) a função indicadora do conjunto \(\{\theta : \psi(\theta) = \psi_0\}\) (assim, \(I_{\{\psi(\theta) = \psi_0\}}(\theta) = 1\) quando \(\psi(\theta) = \psi_0\) e é igual a 0 caso contrário). Observe que \(\varphi(s)\) é a probabilidade de rejeitar \(H_0\), tendo observado \(s\), o que é um erro quando \(I_{\{\psi(\theta) = \psi_0\}}(\theta) = 1\); \(1 - \varphi(s)\) é a probabilidade de aceitar \(H_0\), tendo observado \(s\), o que é um erro quando \(I_{\{\psi(\theta) = \psi_0\}}(\theta) = 0\). Portanto, dados \(s\) e \(\theta\), a probabilidade de cometer um erro é \[ e(\theta, s) = \varphi(s) I_{\{\psi(\theta) = \psi_0\}}(\theta) + (1 - \varphi(s))\,(1 - I_{\{\psi(\theta) = \psi_0\}}(\theta)). \]

Pelo teorema da esperança total, a probabilidade a priori de cometer um erro (tomando a esperança de \(e(\theta, s)\) sob a distribuição conjunta de \((\theta, s)\)) é \begin{equation} E_M\bigl(E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}(e(\theta, s))\bigr). \tag{8.3.3} \end{equation} Como na demonstração do Teorema 8.3.1, se conseguirmos encontrar \(\varphi\) que minimiza \(E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}(e(\theta, s))\) para cada \(s\), então \(\varphi\) também minimiza (8.3.3) e é uma regra de Bayes.

Usando o Teorema 3.5.4 para tirar \(\varphi(s)\) da esperança condicional, e o fato de que \(E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}(I_A(\theta))\) \({}= \Pi(A \,|\, s)\) para qualquer evento \(A\), temos \[ E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}(e(\theta, s)) = \varphi(s)\Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s) + (1 - \varphi(s))\,(1 - \Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s)). \] Como \(\varphi(s) \in [0, 1]\), temos \begin{align*} &\min\{\Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s), 1 - \Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s)\} \\ &\quad\le \varphi(s)\Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s) + (1 - \varphi(s))\,(1 - \Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s)). \end{align*} Portanto, o valor mínimo de \(E_{\Pi(\cdot \,|\, s)}(e(\theta, s))\) é atingido por \(\varphi(s) = \varphi_0(s)\).

Observe que o Teorema 8.3.2 diz que a regra de Bayes rejeita \(H_0\) sempre que a probabilidade a posteriori da hipótese nula é menor ou igual à probabilidade a posteriori da alternativa. Esse é um resultado intuitivamente satisfatório.

Surge, porém, o seguinte problema com essa abordagem. Temos \begin{align} \Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s) &= \frac{E_\Pi(I_{\{\theta : \psi(\theta) = \psi_0\}}(\theta) f_\theta(s))}{m(s)} \notag \\ &\le \frac{\max_{\{\theta : \psi(\theta) = \psi_0\}} f_\theta(s)\,\Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\})}{m(s)}. \tag{8.3.4} \end{align} Quando \(\Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\}) = 0\), (8.3.4) implica que \(\Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s = 0)\) para todo \(s\).74 Portanto, usando a regra de Bayes, sempre rejeitaríamos \(H_0\), quaisquer que fossem os dados \(s\) obtidos, o que não parece sensato. Como discutido na Seção 7.2.3, temos de tomar o cuidado de usar uma priori \(\Pi\) que atribua massa positiva a \(H_0\) se formos usar a abordagem bayesiana ótima num problema de teste de hipóteses.

Resumo da Seção 8.3

Exercícios

8.3.1 Suponha que \(S = \{1, 2, 3\}\), \(\negrito{\Omega} = \{1, 2\}\), com as distribuições dos dados dadas pela tabela a seguir. Colocamos uma priori uniforme em \(\theta\) e queremos estimar \(\theta\).

\(s = 1\)\(s = 2\)\(s = 3\)
\(f_1(s)\)\(1/6\)\(1/6\)\(2/3\)
\(f_2(s)\)\(1/4\)\(1/4\)\(1/2\)

Usando uma regra de Bayes, teste a hipótese \(H_0 : \theta = 2\) quando \(s = 2\) é observado.

8.3.2 Para a situação descrita no Exercício 8.3.1, determine o estimador regra de Bayes de \(\theta\) quando se usa o erro quadrático esperado como medida de desempenho dos estimadores.

8.3.3 Suponha que temos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu\) é desconhecido e \(\sigma_0^2\) é conhecido, e que queremos estimar \(\mu\) usando o erro quadrático esperado como medida de desempenho dos estimadores. Se usarmos a distribuição a priori \(\mu \sim N(\mu, \tau_0^2)\), determine a regra de Bayes para esse problema.75 Determine a regra de Bayes limite quando \(\tau_0 \to \infty\).

8.3.4 Suponha que observamos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(\text{Bernoulli}(\theta)\), em que \(\theta\) é completamente desconhecido, e que queremos estimar \(\theta\) usando o erro quadrático esperado como medida de desempenho dos estimadores. Se usarmos a distribuição a priori \(\theta \sim \text{Beta}(\alpha, \beta)\), determine uma regra de Bayes para esse problema.

8.3.5 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(\text{Gama}(\alpha_0, \beta)\), em que \(\alpha_0\) é conhecido, e que \(\beta \sim \text{Gama}(\tau_0, \upsilon_0)\), em que \(\tau_0\) e \(\upsilon_0\) são conhecidos. Se queremos estimar \(\beta\) usando o erro quadrático esperado como medida de desempenho dos estimadores, determine a regra de Bayes. Use a lei fraca (ou forte) dos grandes números para determinar para onde esse estimador converge quando \(n \to \infty\).

8.3.6 Para a situação descrita no Exercício 8.3.5, determine a regra de Bayes para estimar \(\beta^{-1}\) quando se usa o erro quadrático esperado como medida de desempenho dos estimadores.

8.3.7 Suponha que temos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu\) é desconhecido e \(\sigma_0^2\) é conhecido, e que queremos encontrar o teste de \(H_0 : \mu = \mu_0\) que minimiza a probabilidade a priori de cometer um erro (tipo I ou tipo II). Se usarmos a distribuição a priori \(\mu \sim p_0 I_{\{\mu_0\}}\) \({}+ (1 - p_0) N(\mu_0, \tau_0^2)\), em que \(p_0 \in (0, 1)\) é conhecido (isto é, a priori é uma mistura de uma distribuição degenerada76 em \(\mu_0\) e de uma distribuição \(N(\mu_0, \tau_0^2)\)), determine a regra de Bayes para esse problema. Determine a regra de Bayes limite quando \(\tau_0 \to \infty\). (Sugestão: use as contas do Exemplo 7.2.13.)

8.3.8 Suponha que temos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(\text{Bernoulli}(\theta)\), em que \(\theta\) é desconhecido, e que queremos encontrar o teste de \(H_0 : \theta = \theta_0\) que minimiza a probabilidade a priori de cometer um erro (tipo I ou tipo II). Se usarmos a distribuição a priori \(\theta \sim p_0 I_{\{\theta_0\}}\) \({}+ (1 - p_0)\,\text{Uniforme}[0, 1]\), em que \(p_0 \in (0, 1)\) é conhecido (isto é, a priori é uma mistura de uma distribuição degenerada em \(\theta_0\) e de uma distribuição uniforme), determine a regra de Bayes para esse problema.

Problemas

8.3.9 Suponha que \(\negrito{\Omega} = \{\theta_1, \theta_2\}\), que colocamos uma priori \(\pi\) em \(\negrito{\Omega}\) e que queremos estimar \(\theta\). Suponha que nossa medida de desempenho dos estimadores é a probabilidade de fazer uma escolha incorreta de \(\theta\). Se o modelo é denotado por \(\{f_\theta : \theta \in \negrito{\Omega}\}\), obtenha a forma da regra de Bayes quando os dados \(s\) são observados.

8.3.10 Para a situação descrita no Exercício 8.3.1, use a regra de Bayes obtida pelo método do Problema 8.3.9 para estimar \(\theta\) quando \(s = 2\). Que vantagem essa estimativa tem sobre a obtida no Exercício 8.3.2?

8.3.11 Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma^2)\), em que \((\mu, \sigma^2) \in R^1 \times (0, \infty)\) é desconhecido, e que queremos estimar \(\mu\) usando o erro quadrático esperado como medida de desempenho dos estimadores. Usando a distribuição a priori dada por \[ \mu \,|\, \sigma^2 \sim N(\mu_0, \tau_0^2 \sigma^2), \] e usando \[ \frac{1}{\sigma^2} \sim \text{Gama}(\alpha_0, \beta_0), \] em que \(\mu_0\), \(\tau_0^2\), \(\alpha_0\) e \(\beta_0\) são fixos e conhecidos, determine a regra de Bayes para \(\mu\).

8.3.12 (Seleção de modelos) Generalize o Problema 8.3.9 para o caso \(\negrito{\Omega}\) \({}= \{\theta_1, \ldots, \theta_k\}\).

Desafios

8.3.13 Na Seção 7.2.4, descrevemos o problema de predição77 bayesiano. Usando a notação de lá, suponha que queremos predizer \(t \in R^1\) usando um preditor78 \(\tilde{T}(s)\). Se avaliamos a precisão de um preditor por \[ E((\tilde{T}(s) - t)^2) = E_\Pi(E_{P_\theta}(E_{Q_\theta(\cdot \,|\, s)}((\tilde{T}(s) - t)^2))), \] determine o preditor a priori que minimiza essa quantidade (suponha que todas as esperanças relevantes são finitas). Se observarmos \(s_0\), determine o melhor preditor. (Sugestão: suponha que todas as medidas de probabilidade são discretas.)

8.4 Teoria da Decisão (Avançado)

Para determinar uma inferência ótima, escolhemos uma medida de desempenho e depois tentamos encontrar uma inferência, de um dado tipo, que tenha desempenho ótimo com relação a essa medida. Por exemplo, ao considerar estimativas de uma característica de interesse \(\psi(\theta)\) a valores reais, tomamos o MSE como medida de desempenho e depois procuramos o estimador que o minimiza para cada valor de \(\theta\).

A teoria da decisão está intimamente ligada à abordagem ótima para obter inferências, mas é um pouco mais especializada. No arcabouço da decisão, adotamos o ponto de vista de que, em qualquer problema estatístico, o estatístico se vê diante da tomada de uma decisão, por exemplo, decidir por um valor particular de \(\psi(\theta)\). Além disso, associada a uma decisão está a noção de uma perda sofrida sempre que a decisão é incorreta. Uma regra de decisão é um procedimento, baseado nos dados observados \(s\), que o estatístico usa para selecionar uma decisão. O problema de decisão consiste então em encontrar uma regra de decisão que minimize a perda média sofrida.

Há vários contextos do mundo real em que as perdas são uma parte evidente do problema, por exemplo, as perdas monetárias associadas aos diversos planos de seguro que uma seguradora pode considerar oferecer. Assim, a abordagem da teoria da decisão tem muitas aplicações. Fica claro em muitos problemas práticos, porém, que as perdas (assim como as medidas de desempenho) são componentes um tanto arbitrários de um problema estatístico, muitas vezes escolhidos simplesmente por conveniência. Nessas circunstâncias, as abordagens para obter inferências descritas nos Capítulos 6 e 7 são as preferidas de muitos estatísticos.

Assim, o modelo da teoria da decisão para a inferência acrescenta mais um ingrediente ao modelo amostral (ou ao modelo amostral e à priori) para obter inferências: a função de perda. Para formalizar isso, concebemos um conjunto de ações ou decisões possíveis que o estatístico poderia tomar depois de observar os dados \(s\). Esse conjunto de ações possíveis é denotado por \(\mathcal{A}\) e chamado de espaço de ações. Para ligar essas ações ao modelo estatístico, há uma função de ação correta \(A : \negrito{\Omega} \to \mathcal{A}\) tal que \(A(\theta)\) é a ação correta a tomar quando \(\theta\) é o verdadeiro valor do parâmetro. Naturalmente, como não conhecemos \(\theta\), não conhecemos a ação correta \(A(\theta)\), de modo que há incerteza envolvida em nossa decisão. Considere um exemplo simples.

Exemplo 8.4.1

Suponha que lhe dizem que uma urna com 100 bolas tem ou 50 bolas brancas e 50 pretas, ou 60 brancas e 40 pretas. Cinco bolas são retiradas da urna sem reposição, e suas cores são observadas. A tarefa do estatístico é tomar uma decisão sobre a verdadeira proporção de bolas brancas na urna com base nesses dados.

O modelo estatístico consiste então em duas distribuições \(\{P_1, P_2\}\), em que, usando o espaço paramétrico79 \(\negrito{\Omega} = \{1, 2\}\), \(P_1\) é a distribuição \(\text{Hipergeométrica}(100, 50, 5)\) (veja o Exemplo 2.3.7) e \(P_2\) é a distribuição \(\text{Hipergeométrica}(100, 60, 5)\). O espaço de ações é \(\mathcal{A} = \{0{,}5; 0{,}6\}\), e \(A : \negrito{\Omega} \to \mathcal{A}\) é dada por \(A(1) = 0{,}5\) e \(A(2) = 0{,}6\). Os dados são as cores das cinco bolas retiradas.

Suponhamos agora que haja também uma perda ou penalidade \(L(\theta, a)\) sofrida quando selecionamos a ação \(a \in \mathcal{A}\) e \(\theta\) é verdadeiro. Se selecionamos a ação correta, a perda é 0; caso contrário, ela é maior que 0.

Definição 8.4.1

Uma função de perda é uma função \(L\) definida em \(\negrito{\Omega} \times \mathcal{A}\) e que assume valores em \([0, \infty)\) tal que \(L(\theta, a) = 0\) se e somente se \(a = A(\theta)\).

Às vezes, a perda pode ser uma perda monetária real. Na verdade, a teoria da decisão é um pouco mais geral do que o que acabamos de descrever, pois podemos permitir perdas negativas (ganhos ou lucros), mas a restrição a perdas não negativas é adequada para aplicações puramente estatísticas.

Num problema específico, o estatístico escolhe uma função de perda que se acredita levar a procedimentos estatísticos razoáveis. Essa escolha depende da aplicação particular. Considere alguns exemplos.

Exemplo 8.4.2 Continuação do Exemplo 8.4.1

Talvez uma escolha sensata neste problema seja \[ L(\theta, a) = \begin{cases} 1 & \theta = 1, a = 0{,}6 \\ 2 & \theta = 2, a = 0{,}5 \\ 0 & \text{caso contrário.} \end{cases} \] Aqui decidimos que selecionar \(a = 0{,}5\) quando isso não é correto é um erro mais grave do que selecionar \(a = 0{,}6\) quando isso não é correto. Se quisermos tratar os erros de forma simétrica, podemos tomar \[ L(\theta, a) = I_{\{(1;\, 0{,}6), (2;\, 0{,}5)\}}(\theta, a), \] isto é, as perdas são 1 ou 0.

Exemplo 8.4.3 Estimação como Problema de Decisão

Suponha que temos um parâmetro marginal de interesse \(\psi(\theta)\) e que queremos especificar uma estimativa \(T(s)\) depois de observar \(s \in S\). Aqui, o espaço de ações é \(\mathcal{A} = \{\psi(\theta) : \theta \in \negrito{\Omega}\}\) e \(A(\theta) = \psi(\theta)\). Naturalmente, queremos \(T(s) \in \mathcal{A}\).

Por exemplo, suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma^2)\), em que \((\mu, \sigma^2) \in \negrito{\Omega}\) \({}= R^1 \times R^\) \({}+\) é desconhecido, e que queremos estimar \(\psi(\mu, \sigma^2) = \mu\). Nesse caso, \(\mathcal{A} = R^1\), e um estimador possível é a média amostral \(T(x_1, \ldots, x_n) = \bar{x}\).

Há muitas escolhas possíveis para a função de perda. Talvez uma escolha natural seja usar \begin{equation} L(\theta, a) = \lvert \psi(\theta) - a \rvert, \tag{8.4.1} \end{equation} o desvio absoluto entre \(\psi(\theta)\) e \(a\). Como alternativa, é comum usar \begin{equation} L(\theta, a) = (\psi(\theta) - a)^2, \tag{8.4.2} \end{equation} os desvios quadráticos entre \(\psi(\theta)\) e \(a\).

Chamamos (8.4.2) de perda quadrática. Note que (8.4.2) é simplesmente o quadrado da distância euclidiana entre \(\psi(\theta)\) e \(a\). Pode parecer mais natural usar de fato a distância (8.4.1) como função de perda. Acontece, porém, que há várias conveniências matemáticas que surgem do uso da distância ao quadrado.

Exemplo 8.4.4 Teste de Hipóteses como Problema de Decisão

Neste problema, temos uma característica de interesse \(\psi(\theta)\) e queremos avaliar quão plausível é o valor \(\psi_0\) depois de ver os dados \(s\). Num problema de teste de hipóteses, isso se escreve como \(H_0 : \psi(\theta) = \psi_0\) versus \(H_a : \psi(\theta) \ne \psi_0\). Como na Seção 8.2, chamamos \(H_0\) de hipótese nula e \(H_a\) de hipótese alternativa.

O objetivo de um procedimento de teste de hipóteses é decidir qual das duas, \(H_0\) ou \(H_a\), é verdadeira com base nos dados observados \(s\). Assim, neste problema, o espaço de ações é \(\mathcal{A} = \{H_0, H_a\}\) e a função de ação correta é \[ A(\theta) = \begin{cases} H_0 & \psi(\theta) = \psi_0 \\ H_a & \psi(\theta) \ne \psi_0. \end{cases} \]

Uma maneira alternativa, e útil, de pensar nas duas hipóteses é como subconjuntos de \(\negrito{\Omega}\). Escrevemos \(H_0 = \psi^{-1}\{\psi_0\}\) como o subconjunto de todos os valores de \(\theta\) que tornam a hipótese nula verdadeira, e \(H_a = H_0^c\) é o subconjunto de todos os valores de \(\theta\) que tornam a hipótese nula falsa. Então, com base nos dados \(s\), queremos decidir se o verdadeiro valor de \(\theta\) está em \(H_0\) ou se \(\theta\) está em \(H_a\). Se \(H_0\) (ou \(H_a\)) é formada por um único ponto, ela é chamada de hipótese simples ou hipótese pontual; caso contrário, é chamada de hipótese composta.

Por exemplo, suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) é uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma^2)\), em que \(\theta = (\mu, \sigma^2) \in \negrito{\Omega}\) \({}= R^1 \times R^\) \({}+\), \(\psi(\theta) = \mu\), e que queremos testar a hipótese nula \(H_0 : \mu = \mu_0\) versus a alternativa \(H_a : \mu \ne \mu_0\). Então \(H_0 = \{\mu_0\} \times R^+\) e \(H_a = \{\mu_0\}^c \times R^+\). Para o mesmo modelo, seja \[ \psi(\theta) = I_{(-\infty, \mu_0] \times R^+}(\mu, \sigma^2), \] isto é, \(\psi\) é a função indicadora do subconjunto \((-\infty, \mu_0] \times R^+\). Então testar \(H_0 : \psi = 1\) versus a alternativa \(H_a : \psi = 0\) equivale a testar que a média é menor ou igual a \(\mu_0\) versus a alternativa de que ela é maior que \(\mu_0\). Esse problema de teste de hipóteses unilateral80 costuma ser denotado por \(H_0 : \mu \le \mu_0\) versus \(H_a : \mu > \mu_0\).

Há várias escolhas possíveis para a função de perda, mas a mais usada é da forma \[ L(\theta, a) = \begin{cases} 0 & \theta \in H_0, a = H_0 \text{ ou } \theta \in H_a, a = H_a \\ b & \theta \notin H_0, a = H_0 \\ c & \theta \notin H_a, a = H_a. \end{cases} \] Se rejeitamos \(H_0\) quando \(H_0\) é verdadeira (um erro tipo I), sofremos uma perda de \(c\); se aceitamos \(H_0\) quando \(H_0\) é falsa (um erro tipo II), sofremos uma perda de \(b\). Quando \(b = c\), podemos tomar \(b = c = 1\) e obter a função de perda 0–1, de uso comum.

Um estatístico diante de um problema de decisão — isto é, um modelo, um espaço de ações, uma função de ação correta e uma função de perda — precisa agora escolher uma regra para selecionar um elemento do espaço de ações \(\mathcal{A}\) quando os dados \(s\) são observados. Uma função de decisão81 é um procedimento que especifica como uma ação deve ser selecionada no espaço de ações \(\mathcal{A}\).

Definição 8.4.2

Uma função de decisão não aleatorizada \(d\) é uma função \(d : S \to \mathcal{A}\).

Assim, depois de observar \(s\), decidimos que a ação apropriada é \(d(s)\).

Na verdade, vamos permitir que nossos procedimentos de decisão sejam um pouco mais gerais do que isso, pois admitimos uma escolha aleatória de uma ação depois de observar \(s\).

Definição 8.4.3

Uma função de decisão \(\delta\) é tal que \(\delta(s, \cdot)\) é uma medida de probabilidade no espaço de ações \(\mathcal{A}\) para cada \(s \in S\) (assim, \(\delta(s, A)\) é a probabilidade de que a ação tomada esteja em \(A \subset \mathcal{A}\)).

Operacionalmente, depois de observar \(s\), um mecanismo aleatório com distribuição especificada por \(\delta(s, \cdot)\) é usado para selecionar a ação no conjunto das ações possíveis. Note que, se \(\delta(s, \cdot)\) é uma medida de probabilidade degenerada no ponto \(d(s)\) (assim, \(\delta(s, \{d(s)\}) = 1\)) para cada \(s\), então \(\delta\) é equivalente à função de decisão não aleatorizada \(d\), e reciprocamente (veja o Problema 8.4.8).

O uso de procedimentos de decisão aleatorizados pode parecer bastante pouco natural, mas, como veremos, às vezes eles são um ingrediente essencial da teoria da decisão. Em muitos problemas de estimação, o uso de procedimentos aleatorizados não traz vantagem alguma, mas não é esse o caso em problemas de teste de hipóteses. Denotamos por \(D\) o conjunto de todas as funções de decisão \(\delta\) para o problema específico de interesse.

O problema de decisão consiste em escolher uma função de decisão \(\delta \in D\). A \(\delta\) selecionada será então usada para gerar decisões nas aplicações. Baseamos essa escolha no desempenho das diversas funções de decisão \(\delta\) com relação à função de perda. Intuitivamente, queremos escolher \(\delta\) de modo a tornar a perda a menor possível. Para uma \(\delta\) particular, como \(s \sim f_\theta\) e \(a \sim \delta(s, \cdot)\), a perda \(L(\theta, a)\) é uma quantidade aleatória. Portanto, em vez de minimizar perdas específicas, falamos em minimizar algum aspecto da distribuição das perdas para cada \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Talvez uma escolha razoável seja minimizar a perda média. Assim, definimos a função de risco82 associada a \(\delta \in D\) como a perda média sofrida por \(\delta\). A função de risco tem papel central na determinação de uma função de decisão apropriada para um problema.

Definição 8.4.4

A função de risco associada à função de decisão \(\delta\) é dada por \begin{equation} R_\delta(\theta) = E_\theta(E_{\delta(s, \cdot)}(L(\theta, a))). \tag{8.4.3} \end{equation}

Note que, para calcular a função de risco, primeiro calculamos a média de \(L(\theta, a)\), com \(s\) fixo e \(a \sim \delta(s, \cdot)\). Depois tomamos a média dessa média condicional com relação a \(s \sim f\). Pelo teorema da esperança total, essa é a perda média. Quando \(\delta(s, \cdot)\) é degenerada em \(d(s)\) para cada \(s\), (8.4.3) se simplifica (veja o Problema 8.4.8) para \[ R_\delta(\theta) = E_\theta(L(\theta, d(s))). \]

Considere os exemplos a seguir.

Exemplo 8.4.5

Suponha que \(S = \{1, 2, 3\}\), \(\negrito{\Omega} = \{1, 2\}\) e que as distribuições são dadas pela tabela a seguir.

\(s = 1\)\(s = 2\)\(s = 3\)
\(f_1(s)\)\(1/3\)\(1/3\)\(1/3\)
\(f_2(s)\)\(1/2\)\(1/2\)\(0\)

Suponha ainda que \(\mathcal{A} = \negrito{\Omega}\), \(A(\theta) = \theta\), e que a função de perda é dada por \(L(\theta, a) = 1\) quando \(\theta \ne a\) e é 0 caso contrário.

Agora considere a função de decisão \(\delta\) especificada pela tabela a seguir.

\(a = 1\)\(a = 2\)
\(\delta(1, \{a\})\)\(1/4\)\(3/4\)
\(\delta(2, \{a\})\)\(1/4\)\(3/4\)
\(\delta(3, \{a\})\)\(1\)\(0\)

Assim, quando observamos \(s = 1\), escolhemos aleatoriamente a ação \(a = 1\) com probabilidade 1/4 e a ação \(a = 2\) com probabilidade 3/4, e assim por diante. Note que essa função de decisão faz a coisa sensata e seleciona a decisão \(a = 1\) quando observamos \(s = 3\), já que nesse caso sabemos sem ambiguidade que \(\theta = 1\).

Temos \begin{align*} E_{\delta(1, \cdot)}(L(\theta, a)) &= \frac{1}{4} L(\theta, 1) + \frac{3}{4} L(\theta, 2) \\ E_{\delta(2, \cdot)}(L(\theta, a)) &= \frac{1}{4} L(\theta, 1) + \frac{3}{4} L(\theta, 2) \\ E_{\delta(3, \cdot)}(L(\theta, a)) &= L(\theta, 1), \end{align*} de modo que a função de risco de \(\delta\) é dada por \begin{align*} R_\delta(1) &= E_1(E_{\delta(s, \cdot)}(L(1, a))) \\ &= \frac{1}{3}\Bigl(\frac{1}{4} L(1, 1) + \frac{3}{4} L(1, 2)\Bigr) + \frac{1}{3}\Bigl(\frac{1}{4} L(1, 1) + \frac{3}{4} L(1, 2)\Bigr) + \frac{1}{3} L(1, 1) \\ &= \frac{3}{12} + \frac{3}{12} + 0 = \frac{1}{2} \end{align*} e \begin{align*} R_\delta(2) &= E_2(E_{\delta(s, \cdot)}(L(2, a))) \\ &= \frac{1}{2}\Bigl(\frac{1}{4} L(2, 1) + \frac{3}{4} L(2, 2)\Bigr) + \frac{1}{2}\Bigl(\frac{1}{4} L(2, 1) + \frac{3}{4} L(2, 2)\Bigr) + 0 L(2, 1) \\ &= \frac{1}{8} + \frac{1}{8} + 0 = \frac{1}{4}. \end{align*}

Exemplo 8.4.6 Estimação

Vamos restringir nossa atenção às funções de decisão não aleatorizadas e observar que elas também são chamadas de estimadores. A função de risco associada ao estimador \(T\) e à função de perda (8.4.1) é dada por \[ R_T(\theta) = E_\theta(\lvert \psi(\theta) - T \rvert) \] e é chamada de desvio absoluto médio (MAD). A função de risco associada ao estimador \(T\) e à função de perda (8.4.2) é dada por \[ R_T(\theta) = E_\theta((\psi(\theta) - T)^2) \] e é chamada de MSE.

Queremos escolher o estimador \(T\) que minimiza \(R_T(\theta)\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Note que, quando se usa (8.4.2), esse problema de decisão é exatamente o mesmo problema de estimação ótima discutido na Seção 8.1.

Exemplo 8.4.7 Teste de Hipóteses

Notamos que, para uma dada função de decisão \(\delta\) para este problema e um valor \(s\) dos dados, a distribuição \(\delta(s, \cdot)\) é caracterizada por \(\varphi(s) = \delta(s, H_a)\), que é a probabilidade de rejeitar \(H_0\) quando \(s\) foi observado. Isso porque a medida de probabilidade \(\delta(s, \cdot)\) está concentrada em dois pontos, de modo que basta dar seu valor em um deles para especificá-la completamente. Chamamos \(\varphi\) de função de teste associada a \(\delta\) e observamos que uma função de decisão para este problema também fica especificada por uma função de teste \(\varphi\).

Temos imediatamente que \begin{equation} E_{\delta(s, \cdot)}(L(\theta, a)) = (1 - \varphi(s))\, L(\theta, H_0) + \varphi(s) L(\theta, H_a). \tag{8.4.4} \end{equation} Portanto, quando se usa a função de perda 0–1, \begin{align*} R_\delta(\theta) &= E_\theta((1 - \varphi(s))\, L(\theta, H_0) + \varphi(s) L(\theta, H_a)) \\ &= L(\theta, H_0) + E_\theta(\varphi(s))\,(L(\theta, H_a) - L(\theta, H_0)) \\ &= \begin{cases} E_\theta(\varphi(s)) & \theta \in H_0 \\[2pt] 1 - E_\theta(\varphi(s)) & \theta \in H_a. \end{cases} \end{align*}

Lembre que, na Seção 6.3.6, introduzimos a função poder associada a um procedimento de avaliação de hipóteses83 que rejeitava \(H_0\) sempre que o valor-p era menor que algum valor prescrito. A função poder, calculada em \(\theta\), é a probabilidade de que tal procedimento rejeite \(H_0\) quando \(\theta\) é o verdadeiro valor. Como \(\varphi(s)\) é a probabilidade condicional, dado \(s\), de que \(H_0\) seja rejeitada, o teorema da esperança total implica que \(E_\theta(\varphi(s))\) é igual à probabilidade incondicional de rejeitarmos \(H_0\) quando \(\theta\) é o verdadeiro valor. Assim, em geral, chamamos a função \[ \beta_\varphi(\theta) = E_\theta(\varphi(s)) \] de função poder do procedimento de decisão \(\delta\) ou, de modo equivalente, de função poder da função de teste \(\varphi\).

Portanto, minimizar a função de risco neste caso equivale a escolher \(\varphi\) de modo a minimizar \(\beta_\varphi(\theta)\) para todo \(\theta \in H_0\) e maximizar \(\beta_\varphi(\theta)\) para todo \(\theta \in H_a\). Desse modo, este problema de decisão é exatamente o mesmo problema de inferência ótima discutido na Seção 8.2.

Depois de escrevermos todos os ingredientes de um problema de decisão, fica claro que forma terá uma solução do problema. Em particular, qualquer função de decisão \(\delta_0\) que satisfaça \[ R_{\delta_0}(\theta) \le R_\delta(\theta) \] para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\) e \(\delta \in D\) é uma função de decisão ótima e é uma solução. Se duas funções de decisão têm as mesmas funções de risco, então, do ponto de vista da teoria da decisão, elas são equivalentes. Assim, é concebível que haja mais de uma solução para um problema de decisão.

Na verdade, acontece que uma função de decisão ótima só existe em casos extremamente irrealistas, a saber, quando os dados sempre nos dizem categoricamente qual é a decisão correta (veja o Problema 8.4.9). Não precisamos realmente de inferência estatística em tais situações. Por exemplo, suponha que temos duas moedas: a moeda A tem duas caras e a moeda B tem duas coroas. Assim que observamos o resultado de um lançamento, sabemos exatamente qual moeda foi lançada, e não há necessidade de inferência estatística.

Ainda assim, podemos identificar algumas regras de decisão que não queremos usar. Por exemplo, se \(\delta \in D\) é tal que existe \(\delta_0 \in D\) satisfazendo \(R_{\delta_0}(\theta) \le R_\delta(\theta)\) para todo \(\theta\), e se há pelo menos um \(\theta\) para o qual \(R_{\delta_0}(\theta) < R_\delta(\theta)\), então naturalmente preferimos estritamente \(\delta_0\) a \(\delta\).

Definição 8.4.5

Uma função de decisão \(\delta\) é dita admissível84 se não há \(\delta_0\) estritamente preferida a ela.

Uma consequência da teoria da decisão é que devemos usar somente funções de decisão admissíveis. Ainda assim, há muitas funções de decisão admissíveis e, tipicamente, nenhuma é ótima. Além disso, um procedimento que é apenas admissível pode ser uma escolha muito ruim (veja o Desafio 8.4.11).

Há vários caminhos para sair desse impasse na teoria da decisão. Uma abordagem é usar princípios de redução. Com isso queremos dizer que procuramos uma função de decisão ótima em alguma subclasse \(D_0 \subset D\) considerada apropriada. Procuramos então uma \(\delta_0 \in D_0\) tal que \(R_{\delta_0}(\theta) \le R_\delta(\theta)\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\) e \(\delta \in D_0\), isto é, procuramos uma função de decisão ótima em \(D_0\). Considere o exemplo a seguir.

Exemplo 8.4.8 Testes de Tamanho \(\alpha\) para Teste de Hipóteses

Considere um problema de teste de hipóteses \(H_0\) versus \(H_a\). Lembre que, na Seção 8.2, restringimos a atenção às funções de teste \(\varphi\) que satisfazem \(E_\theta(\varphi) \le \alpha\) para todo \(\theta \in H_0\). Uma tal \(\varphi\) é chamada de função de teste de tamanho \(\alpha\) para este problema. Assim, neste caso, estamos nos restringindo à classe \(D_0\) de todas as funções de decisão \(\delta\) para este problema que correspondem a funções de teste de tamanho \(\alpha\).

Na Seção 8.2, mostramos que às vezes há uma \(\delta \in D_0\) ótima. Por exemplo, quando \(H_0\) e \(H_a\) são simples, o teorema de Neyman–Pearson (Teorema 8.2.1) fornece uma \(\varphi\) ótima; assim, \(\delta\), definida por \(\delta(s, H_a) = \varphi(s)\), é ótima. Também mostramos na Seção 8.2, porém, que em geral não há função de teste \(\varphi\) de tamanho \(\alpha\) ótima e, portanto, não há \(\delta \in D_0\) ótima. Nesse caso, são necessários outros princípios de redução.

Outra abordagem para selecionar uma \(\delta \in D\) se baseia em escolher uma característica particular, a valores reais, da função de risco de \(\delta\) e ordenar as funções de decisão com base nela. Há várias possibilidades.

Uma delas é introduzir uma priori \(\pi\) no problema e então procurar o procedimento de decisão \(\delta \in D\) que tem o menor risco a priori \[ r_\delta = E_\pi(R_\delta(\theta)). \] Procuramos então uma regra cujo risco a priori seja igual a \(\min_{\delta \in D} r_\delta\) (ou \(\inf_{\delta \in D} r_\delta\)). Essa abordagem é chamada de teoria da decisão bayesiana.

Definição 8.4.6

A quantidade \(r_\delta\) é chamada de risco a priori de \(\delta\), \(\min_{\delta \in D} r_\delta\) é chamado de risco de Bayes, e uma regra com risco a priori igual ao risco de Bayes é chamada de regra de Bayes.

Obtivemos regras de Bayes para vários problemas na Seção 8.3. Curiosamente, a teoria da decisão bayesiana sempre produz, na prática, uma resposta para um problema de decisão. Essa é uma propriedade muito desejável para qualquer teoria estatística.

Outra maneira de ordenar as funções de decisão usa o risco máximo (ou supremo). Assim, para uma função de decisão \(\delta\), calculamos \[ \max_{\theta \in \negrito{\Omega}} R_\delta(\theta) \] (ou \(\sup_{\theta \in \negrito{\Omega}} R_\delta(\theta)\)) e então selecionamos uma \(\delta \in D\) que minimiza essa quantidade. Uma tal \(\delta\) tem o menor risco máximo, ou o menor pior comportamento.

Definição 8.4.7

Uma função de decisão \(\delta_0\) que satisfaz85 \begin{equation} \max_{\theta \in \negrito{\Omega}} R_{\delta_0}(\theta) = \min_{\delta \in D} \max_{\theta \in \negrito{\Omega}} R_\delta(\theta) \tag{8.1} \end{equation} é chamada de função de decisão minimax.

De novo, essa abordagem sempre produz, na prática, uma resposta para um problema de decisão (veja o Problema 8.4.10).

Há muito mais a dizer sobre a teoria da decisão do que esta breve introdução aos conceitos básicos. Muitos resultados gerais interessantes foram estabelecidos para a abordagem da teoria da decisão à inferência estatística.

Resumo da Seção 8.4

Exercícios

8.4.1 Suponha que observamos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(\text{Bernoulli}(\theta)\), em que \(\theta\) é completamente desconhecido, e que queremos estimar \(\theta\) usando perda quadrática. Escreva todos os ingredientes desse problema de decisão. Calcule a função de risco do estimador \(T(x_1, \ldots, x_n) = \bar{x}\). Faça o gráfico da função de risco quando \(n = 10\).

8.4.2 Suponha que temos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(\text{Poisson}(\lambda)\), em que \(\lambda\) é completamente desconhecido, e que queremos estimar \(\lambda\) usando perda quadrática. Escreva todos os ingredientes desse problema de decisão. Considere o estimador \(T(x_1, \ldots, x_n) = \bar{x}\) e calcule sua função de risco. Faça o gráfico da função de risco quando \(n = 25\).

8.4.3 Suponha que temos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu\) é desconhecido e \(\sigma_0^2\) é conhecido, e que queremos estimar \(\mu\) usando perda quadrática. Escreva todos os ingredientes desse problema de decisão. Considere o estimador \(T(x_1, \ldots, x_n) = \bar{x}\) e calcule sua função de risco. Faça o gráfico da função de risco quando \(n = 25\), \(\sigma_0^2 = 2\).

8.4.4 Suponha que observamos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(\text{Bernoulli}(\theta)\), em que \(\theta\) é completamente desconhecido, e que queremos testar a hipótese nula de que \(\theta = 1/2\) versus a alternativa de que ele não é igual a essa quantidade, e usamos perda 0–1. Escreva todos os ingredientes desse problema de decisão. Suponha que rejeitamos a hipótese nula sempre que observamos \(n\bar{x} \in \{0, 1, n - 1, n\}\). Determine a forma da função de teste e de sua função poder associada. Faça o gráfico da função poder quando \(n = 10\).

8.4.5 Considere o problema de decisão com espaço amostral86 \(S = \{1, 2, 3, 4\}\), espaço paramétrico \(\negrito{\Omega} = \{a, b\}\), com o parâmetro indexando as distribuições dadas na tabela a seguir.

\(s = 1\)\(s = 2\)\(s = 3\)\(s = 4\)
\(f_a(s)\)\(1/4\)\(1/4\)\(0\)\(1/2\)
\(f_b(s)\)\(1/2\)\(0\)\(1/4\)\(1/4\)

Suponha que o espaço de ações é \(\mathcal{A} = \negrito{\Omega}\), com \(A(\theta) = \theta\), e que a função de perda é dada por \(L(\theta, a) = 1\) quando \(a \ne A(\theta)\) e é igual a 0 caso contrário. (a) Calcule a função de risco da função de decisão determinística dada por \(d(1) = d(2) = d(3) = a\) e \(d(4) = b\).(b) A \(d\) do item (a) é ótima?

Exercícios computacionais

8.4.6 Suponha que temos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(\text{Poisson}(\lambda)\), em que \(\lambda\) é completamente desconhecido, e que queremos testar a hipótese de que \(\lambda \le \lambda_0\) versus a alternativa de que \(\lambda > \lambda_0\), usando a função de perda 0–1. Escreva todos os ingredientes desse problema de decisão. Suponha que decidimos rejeitar a hipótese nula sempre que \(n\bar{x} > \lfloor n\lambda_0\) \({}+ 2\sqrt{n\lambda_0} \rfloor\) e rejeitar aleatoriamente a hipótese nula com probabilidade 1/2 quando \(n\bar{x} = \lfloor n\lambda_0\) \({}+ 2\sqrt{n\lambda_0} \rfloor\). Determine a forma da função de teste e de sua função poder associada. Faça o gráfico da função poder quando \(\lambda_0 = 1\) e \(n = 5\).

8.4.7 Suponha que temos uma amostra \((x_1, \ldots, x_n)\) de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu\) é desconhecido e \(\sigma_0^2\) é conhecido, e que queremos testar a hipótese nula de que a resposta média é \(\mu_0\) versus a alternativa de que a resposta média não é igual a \(\mu_0\), usando a função de perda 0–1. Escreva todos os ingredientes desse problema de decisão. Suponha que decidimos rejeitar sempre que \(\bar{x} \notin [\mu_0 - 2\sigma_0/\sqrt{n}, \mu_0\) \({}+ 2\sigma_0/\sqrt{n}]\). Determine a forma da função de teste e de sua função poder associada. Faça o gráfico da função poder quando \(\mu_0 = 0\), \(\sigma_0 = 3\) e \(n = 10\).

Problemas

8.4.8 Prove que uma função de decisão \(\delta\) que dá uma medida de probabilidade \(\delta(s, \cdot)\) degenerada em \(d(s)\) para cada \(s \in S\) equivale a especificar uma função \(d : S \to \mathcal{A}\), e reciprocamente. Para uma tal \(\delta\), prove que \(R_\delta(\theta) = E_\theta(L(\theta, d(s)))\).

8.4.9 Suponha que temos um problema de decisão e que cada distribuição de probabilidade do modelo é discreta. (a) Prove que \(\delta\) é ótima em \(D\) se e somente se \(\delta(s, \cdot)\) é degenerada em \(A(\theta)\) para cada \(s\) para o qual \(P_\theta(\{s\}) > 0\).(b) Prove que, se existem \(\theta_1, \theta_2 \in \negrito{\Omega}\) tais que \(A(\theta_1) \ne A(\theta_2)\), e \(P_{\theta_1}\), \(P_{\theta_2}\) não estão concentradas em conjuntos disjuntos87, então não há \(\delta \in D\) ótima.

8.4.10 Se a função de decisão \(\delta\) tem risco constante e é admissível, prove que \(\delta\) é minimax.

Desafios

8.4.11 Suponha que temos um problema de decisão em que \(\theta_0 \in \negrito{\Omega}\) é tal que \(P_{\theta_0}(C) = 0\) implica \(P_\theta(C) = 0\) para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\). Suponha ainda que não há função de decisão ótima (veja o Problema 8.4.9). Prove então que a função de decisão não aleatorizada \(d\) dada por \(d(s) \equiv A(\theta_0)\) é admissível. O que esse resultado lhe diz sobre o conceito de admissibilidade?

Tópicos para discussão

8.4.12 Comente a seguinte afirmação: uma exigência natural para qualquer teoria da inferência é que ela produza uma resposta para todo problema de inferência proposto. Discutimos até aqui alguma teoria que você acredite satisfazer isso?

8.4.13 A teoria da decisão produz uma decisão num problema dado. Ela nada diz sobre quão provável é que a decisão esteja errada. Alguns estatísticos argumentam que uma abordagem válida da inferência deve incluir alguma quantificação de nossa incerteza sobre qualquer afirmação que façamos sobre uma incógnita, pois só assim um destinatário pode julgar a confiabilidade da inferência. Comente isso.

8.5 Demonstrações Adicionais (Avançado)

Demonstração do Teorema 8.1.2

Queremos mostrar que uma estatística \(U\) é suficiente para um modelo se e somente se a distribuição condicional dos dados \(s\) dado \(U = u\) é a mesma para todo \(\theta \in \negrito{\Omega}\).

Provamos isso no caso discreto, de modo que \(f_\theta(s) = P_\theta(\{s\})\). O caso geral exige mais matemática, e o deixamos para um curso mais avançado.

Seja \(u\) tal que \(P_\theta(U^{-1}\{u\}) > 0\), em que \(U^{-1}\{u\} = \{s : U(s) = u\}\), de modo que \(U^{-1}\{u\}\) é o conjunto dos valores de \(s\) tais que \(U(s) = u\). Temos \begin{equation} P_\theta(s = s_1 \mid U = u) = \frac{P_\theta(s = s_1, U = u)}{P_\theta(U = u)}. \tag{8.5.1} \end{equation} Sempre que \(s_1 \notin U^{-1}\{u\}\), \[ P_\theta(s = s_1, U = u) = P_\theta(\{s_1\} \cap \{s : U(s) = u\}) = P_\theta(\emptyset) = 0, \] independentemente de \(\theta\). Portanto, \(P_\theta(s = s_1 \mid U = u) = 0\) independentemente de \(\theta\).

Suponhamos então que \(s_1 \in U^{-1}\{u\}\). Então \[ P_\theta(s = s_1, U = u) = P_\theta(\{s_1\} \cap \{s : U(s) = u\}) = P_\theta(\{s_1\}) = f_\theta(s_1). \] Se \(U\) é uma estatística suficiente, o teorema da fatoração88 (Teorema 6.1.1) implica \(f_\theta(s) = h(s) g_\theta(U(s))\) para alguma \(h\) e alguma \(g\). Portanto, como \[ P_\theta(U = u) = \sum_{s \in U^{-1}\{u\}} f_\theta(s), \] (8.5.1) é igual a \[ \frac{f_\theta(s_1)}{\sum_{s \in U^{-1}\{u\}} f_\theta(s)} = \frac{f_\theta(s_1)}{\sum_{s \in U^{-1}\{u\}} c(s, s_1) f_\theta(s_1)} = \frac{1}{\sum_{s \in U^{-1}\{u\}} c(s, s_1)}, \] em que \[ \frac{f_\theta(s)}{f_\theta(s_1)} = \frac{h(s)}{h(s_1)} = c(s, s_1). \] Concluímos que (8.5.1) não depende de \(\theta\).

Reciprocamente, se (8.5.1) não depende de \(\theta\), então, para \(s_1, s_2 \in U^{-1}\{u\}\), temos \[ P_\theta(U = u) = \frac{P_\theta(s = s_2)}{P_\theta(s = s_2 \mid U = u)}. \] Assim, \begin{align*} f_\theta(s_1) &= P_\theta(s = s_1) = P_\theta(s = s_1 \mid U = u) P_\theta(U = u) \\ &= P_\theta(s = s_1 \mid U = u) \frac{P_\theta(s = s_2)}{P_\theta(s = s_2 \mid U = u)} \\ &= \frac{P_\theta(s = s_1 \mid U = u)}{P_\theta(s = s_2 \mid U = u)} f_\theta(s_2) = c(s_1, s_2) f_\theta(s_2), \end{align*} em que \[ c(s_1, s_2) = \frac{P_\theta(s = s_1 \mid U = u)}{P_\theta(s = s_2 \mid U = u)}. \] Pela definição de suficiência na Seção 6.1.1, isso estabelece a suficiência de \(U\).

Estabelecendo a Completude de \(\bar{x}\) no Exemplo 8.1.3

Suponha que \((x_1, \ldots, x_n)\) seja uma amostra de uma distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2)\), em que \(\mu \in R^1\) é desconhecido e \(\sigma_0^2 > 0\) é conhecido. No Exemplo 6.1.7, mostramos que \(\bar{x}\) é uma estatística suficiente minimal.

Suponha que a função \(h\) seja tal que \(E_\mu(h(\bar{x})) = 0\) para todo \(\mu \in R^1\). Então, definindo \[ h^+(\bar{x}) = \max(0, h(\bar{x})) \quad \text{e} \quad h^-(\bar{x}) = \max(0, -h(\bar{x})), \] temos \(h(\bar{x}) = h^+(\bar{x}) - h^-(\bar{x})\). Portanto, tomando \[ c^+(\mu) = E_\mu(h^+(\bar{X})) \quad \text{e} \quad c^-(\mu) = E_\mu(h^-(\bar{X})), \] devemos ter \[ E_\mu(h(\bar{X})) = E_\mu(h^+(\bar{X})) - E_\mu(h^-(\bar{X})) = c^+(\mu) - c^-(\mu) = 0, \] e assim \(c^+(\mu) = c^-(\mu)\). Como \(h^+\) e \(h^-\) são funções não negativas, temos \(c^+(\mu) \ge 0\) e \(c^-(\mu) \ge 0\).

Se \(c^+(\mu) = 0\), então \(h^+(\bar{x}) = 0\) com probabilidade 1, pois uma função não negativa tem média 0 se e somente se é 0 com probabilidade 1 (ver Desafio 3.3.22). Então \(h^-(\bar{x}) = 0\) com probabilidade 1 também, e concluímos que \(h(\bar{x}) = 0\) com probabilidade 1.

Se \(c^+(\mu_0) > 0\), então \(h^+(\bar{x}) > 0\) para todo \(\bar{x}\) num conjunto \(A\) com probabilidade positiva em relação à distribuição \(N(\mu_0, \sigma_0^2/n)\) (caso contrário, \(h^+(\bar{x}) = 0\) com probabilidade 1, o que implica, como acima, que \(c^+(\mu_0) = 0\)). Isso implica que \(c^+(\mu) > 0\) para todo \(\mu\), porque toda distribuição \(N(\mu, \sigma_0^2/n)\) também atribui probabilidade positiva a \(A\) (você pode pensar em \(A\) como um subintervalo de \(R^1\)).

Observe agora que \[ g^+(\bar{x}) = h^+(\bar{x}) \frac{1}{\sqrt{2\pi}\,\sigma_0} \exp(-n\bar{x}^2/2\sigma_0^2) \] é não negativa e estritamente positiva em \(A\).89 Podemos escrever \begin{align} c^+(\mu) = E_\mu(h^+(\bar{X})) &= \int_{-\infty}^{\infty} h^+(\bar{x}) \frac{1}{\sqrt{2\pi}\,\sigma_0} \exp\bigl(-n(\bar{x} - \mu)^2/2\sigma_0^2\bigr)\, d\bar{x} \notag \\ &= \exp(-n\mu^2/2\sigma_0^2) \int_{-\infty}^{\infty} \exp(n\mu\bar{x}/\sigma_0^2) g^+(\bar{x})\, d\bar{x}. \tag{8.5.2} \end{align} Tomar \(\mu = 0\) estabelece que \(0 < \int_{-\infty}^{\infty} g^\) \({}+(\bar{x})\, d\bar{x} < \infty\), pois \(0 < c^+(\mu) < \infty\) para todo \(\mu\). Portanto, \[ \frac{g^+(\bar{x})}{\int_{-\infty}^{\infty} g^+(\bar{x})\, d\bar{x}} \] é uma densidade de probabilidade de uma distribuição concentrada em \(A^+ = \{\bar{x} : h(\bar{x}) > 0\}\). Além disso, usando (8.5.2) e a definição de função geradora de momentos90 da Seção 3.4, \begin{equation} \frac{c^+(\mu) \exp(n\mu^2/2\sigma_0^2)}{\int_{-\infty}^{\infty} g^+(\bar{x})\, d\bar{x}} \tag{8.5.3} \end{equation} é a função geradora de momentos dessa distribuição avaliada em \(n\mu/\sigma_0^2\).

Analogamente, definimos \[ g^-(\bar{x}) = h^-(\bar{x}) \frac{1}{\sqrt{2\pi}\,\sigma_0} \exp(-n\bar{x}^2/2\sigma_0^2), \] de modo que \[ \frac{g^-(\bar{x})}{\int_{-\infty}^{\infty} g^-(\bar{x})\, d\bar{x}} \] é uma densidade de probabilidade de uma distribuição concentrada em \(A^- = \{\bar{x} : h(\bar{x}) < 0\}\). Além disso, \begin{equation} \frac{c^-(\mu) \exp(n\mu^2/2\sigma_0^2)}{\int_{-\infty}^{\infty} g^-(\bar{x})\, d\bar{x}} \tag{8.5.4} \end{equation} é a função geradora de momentos dessa distribuição avaliada em \(n\mu/\sigma_0^2\).

Como \(c^+(\mu) = c^-(\mu)\), temos (tomando \(\mu = 0\)) \[ \int_{-\infty}^{\infty} g^+(\bar{x})\, d\bar{x} = \int_{-\infty}^{\infty} g^-(\bar{x})\, d\bar{x}. \] Isso implica que (8.5.3) é igual a (8.5.4) para todo \(\mu\), e assim as funções geradoras de momentos dessas duas distribuições são iguais em toda parte. Pelo Teorema 3.4.6, essas distribuições têm de ser iguais. Mas isso é impossível, já que a distribuição dada por \(g^+\) está concentrada em \(A^+\), enquanto a distribuição dada por \(g^-\) está concentrada em \(A^-\), e \(A^+ \cap A^- = \emptyset\). Assim, concluímos que não podemos ter \(c^+(\mu) > 0\), e terminamos.

Demonstração do Teorema 8.2.1 (Teorema de Neyman–Pearson)

Queremos provar que, quando \(\negrito{\Omega} = \{\theta_0, \theta_1\}\) e queremos testar \(H_0 : \theta = \theta_0\), existe uma função de teste \(\varphi_0\) de tamanho exato \(\alpha\) da forma \begin{equation} \varphi_0(s) = \begin{cases} 1 & f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) > c_0 \\[1ex] \gamma & f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) = c_0 \\[1ex] 0 & f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) < c_0 \end{cases} \tag{8.5.5} \end{equation} para algum \(\gamma \in [0, 1]\) e algum \(c_0 \ge 0\), e que esse teste é UMP de tamanho \(\alpha\).

Desenvolvemos a demonstração deste resultado no caso discreto. A demonstração no contexto mais geral é semelhante.

Primeiro, observamos que \(\{s : f_{\theta_0}(s)\) \({}= f_{\theta_1}(s)\) \({}= 0\}\) tem medida \(P_\theta\) igual a 0 tanto para \(\theta = \theta_0\) quanto para \(\theta = \theta_1\). Assim, sem perda de generalidade, podemos retirar esse conjunto do espaço amostral e supor daqui em diante que \(f_{\theta_0}(s)\) e \(f_{\theta_1}(s)\) não podem ser 0 ao mesmo tempo. Portanto, a razão \(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s)\) está sempre definida.

Suponha que \(\alpha = 1\). Então, tomando \(c = 0\) e \(\gamma = 1\) em (8.5.5), vemos que \(\varphi_0(s) \equiv 1\), e assim \(E_{\theta_1}(\varphi_0) = 1\). Portanto, \(\varphi_0\) é UMP de tamanho \(\alpha\), pois nenhum teste pode ter poder maior que 1.

Suponha que \(\alpha = 0\). Tomando \(c_0 = \infty\) e \(\gamma = 1\) em (8.5.5), vemos que \(\varphi_0(s) = 0\) se e somente se \(f_{\theta_0}(s) > 0\) (se \(f_{\theta_0}(s) = 0\), então \(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) = \infty\), e reciprocamente). Assim, \(\varphi_0\) é a função indicadora do conjunto \(A = \{s : f_{\theta_0}(s) = 0\}\) e, portanto, \(E_{\theta_0}(\varphi_0) = 0\). Além disso, qualquer função de teste \(\varphi\) de tamanho 0 tem de ser 0 em \(A^c\) para ter \(E_{\theta_0}(\varphi) = 0\). Em \(A\), temos \(0 \le \varphi(s) \le 1 = \varphi_0(s)\), e assim \(E_{\theta_1}(\varphi) \le E_{\theta_1}(\varphi_0)\). Portanto, \(\varphi_0\) é UMP de tamanho \(\alpha\).

Suponha agora que \(0 < \alpha < 1\). Considere a função de distribuição da razão de verossimilhança quando \(\theta = \theta_0\), isto é, \[ 1 - \alpha^*(c) = P_{\theta_0}(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) \le c). \] Assim, \(1 - \alpha^*(c)\) é uma função não decrescente de \(c\), com \(1 - \alpha^*(-\infty) = 0\) e \(1 - \alpha^*(\infty) = 1\).

Seja \(c_0\) o menor valor de \(c\) tal que \(1 - \alpha \le 1 - \alpha^*(c)\) (lembre que \(1 - \alpha^*(c)\) é contínua à direita91, por ser uma função de distribuição). Então temos \(1 - \alpha^*(c_0 - 0)\) \({}= 1 - \lim_{\varepsilon \searrow 0} \alpha^*(c_0 - \varepsilon) \le 1 - \alpha \le 1 - \alpha^*(c_0)\) e (usando o fato de que o salto de uma função de distribuição num ponto é igual à probabilidade do ponto) \begin{align*} P_{\theta_0}(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) = c_0) &= (1 - \alpha^*(c_0)) - (1 - \alpha^*(c_0 - 0)) \\ &= \alpha^*(c_0 - 0) - \alpha^*(c_0). \end{align*} Usando esse valor de \(c_0\) em (8.5.5), tome \[ \gamma = \begin{cases} \dfrac{\alpha - \alpha^*(c_0)}{\alpha^*(c_0 - 0) - \alpha^*(c_0)} & \alpha^*(c_0 - 0) \ne \alpha^*(c_0) \\[2ex] 0 & \text{caso contrário}, \end{cases} \] e observe que \(\gamma \in [0, 1]\). Então temos \begin{align*} E_{\theta_0}(\varphi_0) &= \gamma P_{\theta_0}(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) = c_0) + P_{\theta_0}(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) > c_0) \\ &= \alpha - \alpha^*(c_0) + \alpha^*(c_0) = \alpha, \end{align*} de modo que \(\varphi_0\) tem tamanho exato \(\alpha\).

Suponha agora que \(\varphi\) seja outro teste de tamanho \(\alpha\) e que \(E_{\theta_1}(\varphi) \ge E_{\theta_1}(\varphi_0)\). Particionamos o espaço amostral como \(S = S_0 \cup S_1 \cup S_2\), em que \begin{align*} S_0 &= \{s : \varphi_0(s) - \varphi(s) = 0\}, \\ S_1 &= \{s : \varphi_0(s) - \varphi(s) < 0\}, \\ S_2 &= \{s : \varphi_0(s) - \varphi(s) > 0\}. \end{align*} Observe que \[ S_1 = \{s : \varphi_0(s) - \varphi(s) < 0,\ f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) \le c_0\} \] porque \(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) > c_0\) implica \(\varphi_0(s) = 1\), o que implica \(\varphi_0(s) - \varphi(s)\) \({}= 1 - \varphi(s) \ge 0\), já que \(0 \le \varphi(s) \le 1\). Além disso, \[ S_2 = \{s : \varphi_0(s) - \varphi(s) > 0,\ f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) \ge c_0\} \] porque \(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) < c_0\) implica \(\varphi_0(s) = 0\), o que implica \(\varphi_0(s) - \varphi(s)\) \({}= -\varphi(s) \le 0\), já que \(0 \le \varphi(s) \le 1\).

Portanto, \begin{align*} 0 &\ge E_{\theta_1}(\varphi_0) - E_{\theta_1}(\varphi) = E_{\theta_1}(\varphi_0 - \varphi) \\ &= E_{\theta_1}\bigl(I_{S_1}(s)(\varphi_0(s) - \varphi(s))\bigr) + E_{\theta_1}\bigl(I_{S_2}(s)(\varphi_0(s) - \varphi(s))\bigr). \end{align*} Observe agora que \begin{align*} E_{\theta_1}\bigl(I_{S_1}(s)(\varphi_0(s) - \varphi(s))\bigr) &= \sum_{s \in S_1} (\varphi_0(s) - \varphi(s)) f_{\theta_1}(s) \\ &\ge c_0 \sum_{s \in S_1} (\varphi_0(s) - \varphi(s)) f_{\theta_0}(s) = c_0 E_{\theta_0}\bigl(I_{S_1}(s)(\varphi_0(s) - \varphi(s))\bigr) \end{align*} porque \(\varphi_0(s) - \varphi(s) < 0\) e \(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) \le c_0\) quando \(s \in S_1\). Analogamente, temos \begin{align*} E_{\theta_1}\bigl(I_{S_2}(s)(\varphi_0(s) - \varphi(s))\bigr) &= \sum_{s \in S_2} (\varphi_0(s) - \varphi(s)) f_{\theta_1}(s) \\ &\ge c_0 \sum_{s \in S_2} (\varphi_0(s) - \varphi(s)) f_{\theta_0}(s) = c_0 E_{\theta_0}\bigl(I_{S_2}(s)(\varphi_0(s) - \varphi(s))\bigr) \end{align*} porque \(\varphi_0(s) - \varphi(s) > 0\) e \(f_{\theta_1}(s)/f_{\theta_0}(s) \ge c_0\) quando \(s \in S_2\).

Combinando essas desigualdades, obtemos \begin{align*} 0 &\ge E_{\theta_1}(\varphi_0) - E_{\theta_1}(\varphi) \ge c_0 E_{\theta_0}(\varphi_0 - \varphi) \\ &= c_0\bigl(E_{\theta_0}(\varphi_0) - E_{\theta_0}(\varphi)\bigr) = c_0\bigl(\alpha - E_{\theta_0}(\varphi)\bigr) \ge 0 \end{align*} porque \(E_{\theta_0}(\varphi) \le 0\).92 Portanto, \(E_{\theta_1}(\varphi_0)\) \({}= E_{\theta_1}(\varphi)\), o que prova que \(\varphi_0\) é UMP entre todos os testes de tamanho \(\alpha\).

Notas do capítulo

  1. Termo função de verossimilhança — no original, likelihood function ↩
  2. Termo a priori — no original, prior ↩
  3. Termo a posteriori — no original, posterior ↩
  4. Termo verossimilhança — no original, likelihood ↩
  5. Termo intervalo de confiança — no original, confidence interval ↩
  6. Termo erro quadrático médio — no original, mean-squared error ↩
  7. Termo função de perda — no original, loss function ↩
  8. Termo teoria da decisão — no original, decision theory ↩
  9. Termo estimativa — no original, estimate ↩
  10. Termo estatística suficiente — no original, sufficient statistic ↩
  11. Termo distribuição condicional — no original, conditional distribution ↩
  12. Termo probabilidade condicional — no original, conditional probability ↩
  13. Termo medida de probabilidade — no original, probability measure ↩
  14. Termo esperança condicional — no original, conditional expectation ↩
  15. Termo valor médio — no original, mean value ↩
  16. Termo esperança — no original, expectation ↩
  17. Termo variância — no original, variance ↩
  18. Termo não viesado — no original, unbiased ↩
  19. Termo não viesado de variância uniformemente mínima — no original, uniformly minimum variance unbiased ↩
  20. Termo estimação — no original, estimation ↩
  21. Termo teorema binomial — no original, binomial theorem ↩
  22. Nota do tradutor O original omite o fator \(\binom{n-k}{m-k}\) na soma interna; pela conta, o coeficiente de \(\theta^m\) seria \(\sum_{k=0}^{m} T(k)\binom{n}{k}\binom{n-k}{m-k}(-1)^{m-k}\). O argumento não muda: o lado direito continua sendo um polinômio em \(\theta\). ↩
  23. Termo injetora — no original, one-to-one ↩
  24. Termo completude — no original, completeness ↩
  25. Termo estatística suficiente minimal — no original, minimal sufficient statistic ↩
  26. Termo estatísticas de ordem — no original, order statistics ↩
  27. Termo frequência relativa — no original, relative frequency ↩
  28. Termo desigualdade de Cramer–Rao — no original, Cramer–Rao inequality ↩
  29. Termo covariância — no original, covariance ↩
  30. Termo de Cauchy–Schwartz — no original, Cauchy–Schwartz inequality ↩
  31. Termo função escore — no original, score function ↩
  32. Termo informação de Fisher — no original, Fisher information ↩
  33. Termo cota inferior — no original, lower bound ↩
  34. Termo log-verossimilhança — no original, log-likelihood ↩
  35. Termo função de probabilidade condicional — no original, conditional probability function ↩
  36. Termo distribuição uniforme — no original, uniform distribution ↩
  37. Termo de Jensen — no original, Jensen's ↩
  38. Termo desvio padrão — no original, standard deviation ↩
  39. Termo valor esperado — no original, expected value ↩
  40. Termo desvio padrão — no original, standard deviation ↩
  41. Nota do tradutor Pelo conteúdo, a sugestão parece remeter ao Problema 8.1.18 (estimador UMVU de \(\sigma\)); o original traz 8.1.17. ↩
  42. Termo estatística completa — no original, complete statistic ↩
  43. Termo variável aleatória — no original, random variable ↩
  44. Termo hipótese nula — no original, null hypothesis ↩
  45. Termo função poder — no original, power function ↩
  46. Termo modelo normal de locação — no original, location normal model ↩
  47. Termo erro tipo I — no original, type I error ↩
  48. Termo erro tipo II — no original, type II error ↩
  49. Termo cota superior — no original, upper bound ↩
  50. Termo teste de hipóteses — no original, hypothesis testing ↩
  51. Termo bilateral — no original, two-sided ↩
  52. Termo região de rejeição — no original, rejection region ↩
  53. Termo função indicadora — no original, indicator function ↩
  54. Termo função de teste — no original, test function ↩
  55. Termo probabilidade incondicional — no original, unconditional probability ↩
  56. Termo teste UMP — no original, UMP test ↩
  57. Nota do tradutor o original remete ao Desafio 8.2.22; o desafio que pede esta demonstração é o 8.2.23 ↩
  58. Termo razão de verossimilhança — no original, likelihood ratio ↩
  59. Nota do tradutor pela fórmula (8.2.5), o denominador seria \(P_{0{,}25}(n\bar X = 3)\) \({}= 0{,}962 - 0{,}831\) \({}= 0{,}131\), o que daria \(\gamma \approx 0{,}092\); o original divide por 0,962 ↩
  60. Nota do tradutor o original repete aqui as hipóteses da frase anterior; pelo contexto seria \(H_0 : \theta \ge \theta_0\) versus \(H_a : \theta < \theta_0\) ↩
  61. Termo modelo normal de locação e escala — no original, location-scale normal model ↩
  62. Termo variável resposta — no original, response variable ↩
  63. Termo função beta — no original, beta function ↩
  64. Termo integração por partes — no original, integration by parts ↩
  65. Termo função gama — no original, gamma function ↩
  66. Nota do tradutor o original traz \(H_0\) também na segunda hipótese; pelo contexto seria \(H_a : \mu \ne \mu_0\) ↩
  67. Nota do tradutor o original define \(\varphi_{\psi_0}^*\) com \(C(s)\); pelo contexto seria \(C^*(s)\) ↩
  68. Nota do tradutor o original traz \(H_0\) também na segunda hipótese; pelo contexto seria \(H_a : \psi(\theta) \ne \psi_0\) ↩
  69. Termo região de confiança — no original, confidence region ↩
  70. Termo distribuição conjunta — no original, joint distribution ↩
  71. Termo modelo amostral — no original, sampling model ↩
  72. Termo distribuição marginal — no original, marginal distribution ↩
  73. Termo preditiva a priori — no original, prior predictive ↩
  74. Nota do tradutor O original traz “\(\Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s = 0)\)”; pelo sentido, seria \(\Pi(\{\psi(\theta) = \psi_0\} \,|\, s) = 0\). ↩
  75. Nota do tradutor O original traz a priori \(N(\mu, \tau_0^2)\); pela notação dos Exercícios 8.3.7 e 8.3.11, seria \(N(\mu_0, \tau_0^2)\). ↩
  76. Termo distribuição degenerada — no original, degenerate distribution ↩
  77. Termo predição — no original, prediction ↩
  78. Termo preditor — no original, predictor ↩
  79. Termo espaço paramétrico — no original, parameter space ↩
  80. Termo unilateral — no original, one-sided ↩
  81. Termo função de decisão — no original, decision function ↩
  82. Termo função de risco — no original, risk function ↩
  83. Termo avaliação de hipóteses — no original, hypothesis assessment ↩
  84. Termo admissível — no original, admissible ↩
  85. Nota do tradutor A equação da Definição 8.4.7 é numerada (8.1) no original; pela sequência da seção, seria (8.4.5). ↩
  86. Termo espaço amostral — no original, sample space ↩
  87. Termo disjuntos — no original, disjoint ↩
  88. Termo teorema da fatoração — no original, factorization theorem ↩
  89. Nota do tradutor A densidade de \(\bar{X} \sim N(\mu, \sigma_0^2/n)\) tem a constante \(\sqrt{n}/(\sqrt{2\pi}\,\sigma_0)\); o original omite o fator \(\sqrt{n}\) aqui e em \(g^+\) e \(g^-\). Uma constante positiva não altera o argumento. ↩
  90. Termo função geradora de momentos — no original, moment-generating function ↩
  91. Termo contínua à direita — no original, right continuous ↩
  92. Nota do tradutor O original traz \(E_{\theta_0}(\varphi) \le 0\); como \(\varphi\) é um teste de tamanho \(\alpha\), seria \(E_{\theta_0}(\varphi) \le \alpha\). ↩